Alberto Caeiro e Ricardo Reis: anotações comparativas

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Neste post trago umas anotações comparativas entre Alberto Caeiro e Ricardo Reis, dois dos três principais heterônimos de Fernando Pessoa. ‘Bora lá?

Poema XXIII

O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta …

Se eu interrogasse e me espantasse                                                                                5
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo… 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado                                                                                 10
E achava mais feio o sol …
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

Alberto Caeiro in O guardador de rebanhos

DSC_1659 Nos dois primeiros versos, o sujeito lírico se funde com a natureza. A calma é um estado de espírito que condiciona o sujeito a perceber e sentir as coisas.

Nesse poema, a desconstrução, proposta por Caeiro, das razões e explicações é representada nos versos 4-7, os quais tomam a explicação como inibidora de processos naturais (verso 7) e do desenvolvimento orgânico das coisas (verso 8).

 Diante da hipótese de a inibição, suposta nos versos 7 e 8, não acontecer, ou seja, os questionamentos não inibirem a manifestação da natureza, o sujeito lírico supõe um enfraquecimento da capacidade perceptora (versos 10 e 11). Assim, há uma subordinação da razão e das explicações às sensações, indicando que são duas grandezas inversamente proporcionais: quanto mais racionalidade, menos sensibilidade.

Os versos 12-14 sintetizam a proposta do sujeito lírico: deixar as coisas como estão, sem tentar pensar sobre elas e explicá-las; ao sujeito lírico basta se permitir entrar em contato com a natureza e senti-la.

***

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.                                  5

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.                          10

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.                  15

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.                          20

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.                     25

Ricardo Reis

Em tom de aconselhamento, marcado pelo uso do imperativo nos versos 1, 2, 3, 14, 16 e 22, o sujeito poético propõe a busca do equilíbrio por meio do desvencilhamento e do distanciamento das coisas.

O poema é direcionado a um “tu”, que pode ser qualquer um. Assim como os estoicos, o sujeito lírico propõe o despreendimento, o distanciamento da vida. Ele faz um convite à autonomia porque a realidade é sempre mais ou menos (segunda estrofe) e nem os deuses podem dar as respostas (quarta estrofe), logo, é melhor não se preocupar com as perguntas. Se a transcendência não responde, a realidade não satisfaz e o outro não pode ser um parâmetro (segunda estrofe), o indivíduo deve buscar o equilíbrio em si mesmo, porém sem ser reflexionante, sem se pensar (quinta estrofe).

Os dois poemas têm alguns pontos em comum. Ambos os poemas propõem a) a calma para a percepção e a experiência da simplicidade; b) o “sentir o mundo” como forma de apropriá-lo; c) o abandono dos questionamentos: em Caeiro, porque o sujeito poético não quer se preocupar com isso, em R. Reis, porque o sujeito poético não acredita que haja respostas alcançáveis.

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

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