Análise: Para um monumento ao antidepressivo

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A análise de hoje é de um poema de um poeta contemporâneo não muito conhecido: Paulo Henriques Britto. Mas ele dialogo com outro poema mais familiar de um autor mais conhecido ainda: Num monumento à aspirina, de João Cabral de Melo Neto. Vamos começar?

Para um monumento ao antidepressivo (Paulo Henriques Britto)

              Um pequeno sol de bolso                           

              que não propriamente ilumina          

              mas durante seu percurso                

              dissipa a neblina                              

5           que impede o outro sol, importátil,                         

              de revelar sem distorção                  

              dura, doída, suportável,                   

              a humana condição.                         

 O poema Para um monumento ao antidepressivo faz referência direta a:

 Num monumento à aspirina (João Cabral de Melo Neto)

            Claramente: o mais prático dos sóis,       

            o sol de um comprimido de aspirina:       

            de emprego fácil, portátil e barato,          

            compacto de sol na lápide sucinta.          

5         Principalmente porque, sol artificial,                                        

            que nada limita a funcionar de dia,         

            que a noite não expulsa, cada noite,                

             sol imune às leis de meteorologia,           

             a toda hora em que se necessita dele     

10        levanta e vem (sempre num claro dia):                        

             acende, para secar a aniagem da alma,   

             quará-la, em linhos de um meio-dia.                          

                                                *

              Convergem: a aparência e os efeitos       

              da lente do comprimido de aspirina:                

 15        o acabamento esmerado desse cristal,                       

               polido a esmeril e repolido a lima,            

               prefigura o clima onde ele faz viver                                               

               e o cartesiano de tudo nesse clima.                  

               De outro lado, porque lente interna,                

20         0 de uso interno, por detrás da retina,                   

               não serve exclusivamente para o olho     

               a lente, ou o comprimido de aspirina:      

               ela reenfoca, para o corpo inteiro,           

               o borroso de ao redor, e o reafina.           

O sol artificial

O poema de Cabral é uma apologia à aspirina. Na primeira parte do poema, o poeta elogia a materialidade e a praticidade do analgésico, compara-o com o sol, satélite natural, considerando aquele superior a este. Na segunda parte, Cabral trata o comprimido de aspirina como uma lente que filtra, reenfoca e reafina o mundo, ele atribui à aspirina a capacidade de adaptação da realidade exterior antes que esta seja interiorizada (v. 23-24).

Britto não elogia a aspirina, mas faz um poema sobre a apologia, feita por Cabral, à aspirina. Na primeira parte, o poeta compara a aspirina a um sol que não ilumina, mas que desanuvia. Na segunda parte, ele trata a aspirina como uma droga que impede o sol natural de revelar a dor de estar neste mundo.

Numa visão materialista, Cabral valoriza a imanência, a praticidade do artificial e a “tradução” do mundo natural, recursos que são possibilitados pela aspirina. Os versos do poema rimam, de forma toante e intercalada, com a palavra aspirina, reforçando a ideia de que todo o resto é ajustado e condicionado ao analgésico. O sol, satélite natural, é rebaixado a uma condição inferior à do sol artificial (v. 6-8), que causa efeitos semelhantes aos do paraíso artificial, de Baudelaire, resultando numa forma de refúgio da dor humana.

No poema de Britto, os versos são rimados, e a abordagem do poeta é de cunho existencialista. O poeta considera a aspirina de Cabral um antidepressivo que, ao aliviar a dor, que não é apenas física, compromete a reflexão do homem sobre questões existenciais (v. 5-8). Nesse sentido, de analgésico a aspirina também passa a adquirir as propriedades de um anestésico.

Ao mesmo tempo em que homenageia Cabral, citando-o diretamente, Britto posiciona-se de um modo diferente ao do poeta nordestino. Ele mostra uma forma distinta de perceber o mundo e considera necessário o confronto com o sofrimento porque, para ele, a condição humana é suportável.

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 Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!