Análise: Paisagem n.4 (Mário de Andrade)

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Paisagem n. 4 é o último de uma série de quatro poemas que, por meio da descrição de cenas quotidianas, exprime a exaltação do poeta perante a promessa de progresso que movia a cidade de São Paulo no início do século XX.  Mais uma análise de poema de Mário de Andrade, bora lá!

Paisagem n. 4                              

       Os caminhões rodando,

       as carroças rodando,         

        rápidas as ruas se desenrolando,         

        rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos…         

5     E o largo coro de ouro das sacas de café!…                                                    

        Na confluência o grito inglês da São Paulo Railway…         

         Mas as ventaneiras da desilusão! a baixa do café!…         

         As quebras, as ameaças, as audácias superfinas!…         

         Fogem os fazendeiros para o lar!… Cincinato Braga!…         

10    Muito ao longe o Brasil com seus braços cruzados…                               

          Oh! as indiferenças maternais!…                     

          Os caminhões rodando, as carroças rodando,rápidas as ruas se desenrolando,         

           rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos…         

15      E o largo coro de ouro das sacas de café!…                                             

           Lutar!         

           A vitória de todos os sozinhos!…         

           As bandeiras e os clarins dos armazéns abarrotados…         

           Hostilizar!… Mas, as ventaneiras dos braços cruzados!…          

20     E a coroação com os próprios dedos!                                                     

           Mutismos presidenciais, para trás!         

           Ponhamos os (Victória!) colares de presas inimigas!         

           Erguirlandemo-nos de café-cereja!Taratá e o pean de escárnio para o mundo!          

           Oh! Este orgulho máximo de ser paulistamente!!!

 Mário de Andrade (Paulicéia Desvairada, 1922)

O poeta desvairado

As quatro primeiras estrofes se intercalam entre o entusiasmo do eu lírico com a cidade em desenvolvimento e a sua percepção da falta de entusiasmo alheio. A quinta estrofe traz um resumo do projeto modernista de Mário de Andrade, que almejava, por meio da busca pelo primitivismo, uma práxis brasileira, uma identidade nacional. A última estrofe sintetiza o estado de ânimo do poeta.

Com ausência de rima e de métrica, o poema é composto por seis estrofes repletas de versos com pouca coesão entre si, reticências e interjeições, formando um cintilante mosaico. Essas características são “herança” das vanguardas europeias, que buscavam no irracionalismo uma ruptura com o passado.

As idênticas primeira e terceira estrofes são compostas por adjetivos que aludem à sonoridade (rouco, estrépido, estalido). Os verbos, além de estarem flexionados no gerúndio, o que já denota movimento, também indicam deslocação (rodar, desenrolar). Os substantivos são associados ao transporte (caminhões, carroças, ruas), recurso essencial para o desenvolvimento de qualquer região. A referência das sacas de café, principal ativo financeiro da cidade de São Paulo no início do século XX, somada às referências aos meios de transportes são indícios de uma intensiva atividade econômica. Todos esses recursos formam a imagem de uma cidade urbana e em desenvolvimento.

           Os caminhões rodando, as carroças rodando,

            rápidas as ruas se desenrolando,         

            rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos…         

            E o largo coro de ouro das sacas de café!…

Fazendo um contraponto com a primeira, a segunda estrofe apresenta a falta de envolvimento dos demais com os sinais de progresso da cidade. O mau momento econômico e suas consequências são abordados nos versos 6-8. Nos versos 9 e 10, conforme define Knoll (1983, p. 61), é formada uma imagem arlequinal da cidade: São Paulo é dilacerada, apartada do Brasil e com autonomia. No entanto, a cidade ainda mantém vínculo com o país, já que há referência ao Brasil como mãe de São Paulo.

             Na confluência o grito inglês da São Paulo Railway…         

             Mas as ventaneiras da desilusão! a baixa do café!…         

             As quebras, as ameaças, as audácias superfinas!…         

             Fogem os fazendeiros para o lar!… Cincinato Braga!…         

10        Muito ao longe o Brasil com seus braços cruzados…                    

             Oh! as indiferenças maternais!…

A quarta estrofe é uma chamada ao combate. Num modo como agiam os artistas de vanguarda, os versos trazem dois verbos no infinitivo (lutar, hostilizar), uma forma de encorajamento como se o eu lírico quisesse provocar uma catarse. No verso 17 há palavras que aludem às forças armadas (bandeira, clarins), apesar dos braços cruzados da estrofe anterior (v. 9), que se repete no verso 18.

15       Lutar!         

            A vitória de todos os sozinhos!…         

            As bandeiras e os clarins dos armazéns abarrotados…         

            Hostilizar!…

            Mas, as ventaneiras dos braços cruzados!…

A imagem criada na quinta estrofe remete ao primitivismo. Numa busca pelo nacionalismo para composição da identidade brasileira o verso 19 propõe a independência do Brasil. Apesar da indiferença presidencial (v. 20), há um vislumbre da capitulação do inimigo com um ritual tribal (v. 21) e uma valorização da nacionalidade expressa pela sugestão de guirlanda de café-cereja (v. 22) e o desprezo para o mundo (v. 23), numa atitude arlequinal.

 20      E a coroação com os próprios dedos!     

             Mutismos presidenciais, para trás!         

             Ponhamos os (Victória!) colares de presas inimigas!         

             Erguirlandemo-nos de café-cereja!

             Taratá e o pean de escárnio para o mundo!          

Composta por apenas um verso, a última estrofe traz o entusiasmo do eu lírico que manifesta sua alegria com um advérbio de modo, que, simbolicamente, também é de intensidade. A circunstância de ser paulistano foi modificada pela intensidade de sê-lo.          

             Oh! Este orgulho máximo de ser paulistamente!!!

O uso excessivo de reticências e exclamações em Paisagem n. 4, marcando a incompletude e o ritmo de uma cidade em industrialização, mas também indicando o pensamento inconcluso e cintilante do poeta. Dessa época, os poemas de Mário de Andrade rompem com o modo formal de poesia e adotam um cunho mais político.

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 Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

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