Cracóvia, n.1: os judeus e a fábrica de Schindler

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Pisei na Polônia. Vejam o que eu vi.

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Sei que muitos dos turistas que visitam Cracóvia querem apenas visitar o castelo, passear pelo centro histórico… enfim, querem “turistar”. Eu fiz essas coisas. Também.

Quem acompanha este blog sabe que estou seguindo um projeto de leitura sobre nazismo, holocausto (veja as resenhas das leituras aqui). Depois de visitar o Museu do Holocausto, em Berlim, e a Casa de Anne Frank, em Amsterdam, tive vontade de ler mais sobre essas questões. Sabemos que a Segunda Guerra Mundial começou com a invasão da Polônia por Hitler em 01 de setembro de 1939. Por que a Polônia? Porque é o local onde mais havia judeus. Vimos na resenha de Minha luta, livro autobiográfico de Adolf Hitler, que ele formulou um plano de dominação, no qual considerava os judeus como parasitas, causadores de tudo que lhe desagradava.

Pois bem, por tudo isso, estando na Cracóvia, não poderia deixar de fazer uma incursão pelo…

Bairro Judeu

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O bairro de Kazimierz era, em seu início, no século XIV, uma cidade independente. No século XV, os judeus foram expulsos de Cracóvia e obrigados a se mudar para isolarem numa pequena parte desse Kazimierz, bairro separado por um muro, porém eles tinham autorização para ir e vir e moravam com não judeus. No século XVI, foi proibido o convívio de não judeus com judeus e estes ficaram sozinhos no bairro. Mais tarde, o bairro se tornou lugar de acolhida de outros judeus que fugiam de perseguições na Europa.

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 O bairro ainda guarda a memória de um passado não muito distante, quando o bairro foi devastado durante o Holocausto. Na ocasião da Segunda Guerra Mundial, cerca de 65 mil judeus moravam em Cracóvia, a maioria deles nesse bairro.

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Atualmente, o bairro ainda tem muitas sinagogas e vemos casas mal cuidadas, encardidas, e pouco dinamismo em algumas partes do bairro; já outras partes são repletas de pubs, onde há maior circulação de pessoas.

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Perto do bairro judeu, está a região onde era o…

Podgórze (Gueto de Cracóvia)

Um bairro separado não foi suficiente. Durante a Segunda Guerra Mundial os alemães confinaram os judeus no bairro Podgórze, perto do bairro judeu. O local foi murado e vigiado, e também entulhado de gente: 15 mil pessoas passaram a viver em uma área onde antes viviam apenas 3 mil. Aos poucos, trens conduziram os moradores do gueto à Płaszow, onde havia um campo de concentração, local de extermínio onde muitos judeus foram executados, apesar de não ser um campo de extermínio.

Hoje o muro do gueto não existe mais. As demarcações de outrora não são nítidas, mas “pesquei” uma imagem da internet para vocês terem uma ideia de como era.

Imagem deste link

Daqueles tempos sombrios há dois lugares de memória na região. O primeiro é a…

Apteka Pod Orłem (Farmácia do Águila)

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Por que essa farmácia é tão famosa na região? Porque  Tadeusz Pankiewicz, farmacêutico do local e único polonês não judeu que vivia na região, não aceitou a oferta dos nazistas para se transferir para a parte “ariana” da cidade. Os nazistas aceitaram essa negativa do farmacêutico por medo de uma possível contaminação por tifo. A ideia era que o farmacêutico ajudasse a conter a doença. Essa concessão foi aproveitada pelo farmacêutico para proteger os judeus do local. Em seu estabelecimento também ocorriam atividades clandestina de resistência.

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Hoje, no local, funciona um museu que conta, sistematiza e homenageia os heróis da ocasião.

Por falar em heróis, o outro lugar de memória, em frente à farmácia é a…

Praça dos Heróis do Gueto

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A primeira pergunta que se pode fazer é: por que cadeiras para representar um lugar de memória sobre o holocausto? As respostas sempre parecem-me ter uma explicação histórica. Neste caso não é diferente. Essa praça se chamava Plac Zgody (Praça da Concórdia), durante a Segunda Guerra Mundial, os judeus rumavam para esse local com seus pertences (móveis, roupas, objetos pessoais etc.) a espera de uma designação dos nazistas. Todos acabavam por ser deportados para Płaszow ou Auschwitz Belzec, onde a grande maioria foi exterminada. Outra “função” dessa praça: lugar de execução.

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 Cada cadeira presenta 10 mil judeus. Dez mil vidas que se foram.

Atravessando essa praça e andando mais um pouco, encontramos a…

Fábrica de Schindler

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Quem assistiu ao filme A lista de Schindler, de Steve Spielberg, sabe quem foi Schindler. No filme ele é apresentado como um herói, porém em livros que já li, ele também é apresentado como um herói, sim, mas também uma pessoa com caráter questionável, pois se beneficiou de bens expropriados pelos nazistas para fazer sua fortuna. O que não se pode duvidar é que ele salvou muitas vidas, o que já é muito louvável.

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O local onde era a fábrica, hoje funciona um museu com uma excelente exposição sobre a invasão da Polônia (1939-1945)

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Essa exposição aguça todos os sentidos da gente. São muito estímulos visuais e sonoros. Percebam na imagem acima a simulação das lápides.

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A invasão é colorida e asfixiante.DSC_0247

Na imagem abaixo, vemos a representação das salas de aulas esvaziadas à força.

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A imagem abaixo simula os esmaltados produzidos na fábrica de Schindler. Posteriormente Schindler foi obrigado a fabricar armas para ajudar os nazistas a se manterem na guerra.

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Eis a lista de Schindler:

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Oskar Schindler recrutava judeus para trabalhar em sua fábrica, convencendo os nazistas de que precisavam daqueles para manter sua fábrica. Assim, muitos judeus não foram enviados aos campos de concentração e conseguiram sobreviver ao holocausto.

Rapidinhas

Muita gente pode pensar que é pesado entrar em contato com essa realidade. Mas considero necessário. Se estamos nesse mundo, temos que tentar entendê-lo em todas suas manifestações. Concordando com elas ou não.

Muito +

Veja o álbum fotográfico da Cracóvia

2 Comentários

  1. Ola! Eu vivo em Cracóvia e trabalho como guia. Fico muito feliz que gostou a cidade e o Museu na antiga Fábrica de Oskar Schindler. Por favor, não me leve a mal que eu vou corrigir alguns erros. A primeira coisa: o bairro judeu criado na antiga cidade de Kazimierz não era fechado, os judeus podiam entrar e sair quando queriam e trabalhavam fora do bairro, mesmo em Cracóvia (e verdade que o rei no ano de 1494 ordenou a mudança dos judeus para a vizinha cidade de Kazimierz mas eles tinham a autorização a continuarem os seus negócios em Cracóvia). Para alem disso no início os judeus moravam no chamado bairro judeu junto com não-judeus. Apenas em 1586 eles receberam o privilegio De non tolerandis cristianis que dizia que os cristãos não tinham direito a viver no bairro judeu, o privilegio muito favoravel que permitia aos judeus praticar livremente os custumes e leis da Torá (só poucas comunidades gozavam deste privilegio). A segunda coisa: o campo de Plaszow era o campo de concentração – não de extermínio, não tinha as câmaras de gás, mas é verdade que muitos judeus foram assassinados dentro do campo por exemplo pelo sádico comandante Amon Goeth. No entanto os judeus do gueto de Cracóvia em geral não foram deporatdos a Auschwitz. Auschwitz foi destinado para os judeus de fora do Governo Geral. Os judeus de Cracóvia eram deportados ao campo de extermínio em Belzec. Desculpe por meu portugues que é longe do perfeito.

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