A Ilíada ilustrada

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Para termos um razoável entendimento da Ilíada, necessitamos saber o que aconteceu antes e depois dos episódios narrados nesse épico. Apenas com a leitura da obra, algumas questões ficam sem respostas, como: por que começou a guerra de Troia? por que alguns deuses apoiam os aqueus (gregos) e outros os troianos? E o famoso cavalo de Troia que não aparece no poema, onde entra? E o calcanhar de Aquiles, tem alguma coisa a ver com tudo isso? etc., etc., etc.

Por tudo isso, resolvi fazer esse post explicativo e ilustrativo para tentar elucidar o que não é tão óbvio na obra.

Vamos começar, como sempre, pela árvore genealógica dos envolvidos.

Genealogia deuses4

Com essa árvore entendemos que Atreu é rei de Micenas e Menelau é rei de Esparta (Lacedemonia); Agamemnon, é líder dos gregos durante a Guerra de Troia. Clitemnestra e Helena são irmãs gêmeas e cada uma se casou com um dos irmãos, príncipes de Micenas.

+ Entendendo a mitologia: Zeus e os seus

No post sobre Zeus e os seus, eu disse que Helena é filha de Zeus com Leda e nasceu de um cisne, não foi? Na árvore genealógica abaixo ela consta como filha de Tíndaro e Leda. Tá contraditório? Acho que não. Vocês hão de se lembrar que Zeus é apenas um fecundador, fecunda tudo que se move. E só, sua ação para por aí. Imaginem se fosse nos tempos atuais, ele gastaria toda sua riqueza pagando pensão alimentícia. Voltando, então… como pai é aquele que cria, Tíndaro também é pai de Helena.

Prestem atenção nos filhos de Clitemnestra e Agamemnon. Eles têm muita história… Já ouviram falar de Ifigênia de Eurípedes e no complexo de Electra? Guardem, não vou tratar disso neste post. 

Voltando à Ilíada, do lado troiano, temos esta árvore genealógica reduzida. É reduzida porque Príamo e Hécuba tiveram 19 filhos, represento apenas os que nos interessam aqui.

Genealogia deuses5

Mas antes de começar, peço que vejam o outro post que fiz sobre mitologia no qual descrevi os envolvimentos amorosos e os principais descendentes de Zeus.

+ Entendendo a mitologia: a origem

Leiam também o post sobre a origem dos deuses para a compreensão deste ficar mais fácil.

Personagens apresentados, vamos aos fatos.

O que motivou a Guerra de Troia?

Agora que vocês já leram os posts sobre mitologia, entenderam melhor o que vou explicar. 

Houve uma festa dos deuses do Olimpo para a qual Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada. Provando a que veio neste mundo, Éris resolveu estragar a alegria que imperava, da qual quiseram evitar sua participação. Sob disfarce, ela entregou aos deuses uma linda maçã em ouro com a inscrição “para a mais bela”. Percebam que a maçã da Eva do Gênesis e da Branca de Neve têm lastro histórico.

Voltando aos deuses, nem preciso dizer que essa maçã provocou uma acirrada disputa entre as deusas, dentre as quais as mais poderosas tiveram destaque (Hera/Juno, Afrodite/Vênus e Atenas/Minerva). Como todo homem sabe que, para o próprio bem, é bom ficar longe desse tipo de confusão, os deuses do Olimpo, inclusive Zeus/Júpiter, perceberam que era melhor não se meterem nisso. Então, resolveram escolher um mortal para ficar nessa saia justa. O eleito foi Páris, filho de Príamo e Hécuba, reis de Troia. No entanto, Páris ainda não se sabia príncipe, pois vivia no campo, lugar para onde foi mandado desde bebê porque pouco antes de seu nascimento, sua mãe havia sonhado que estava dando a luz a serpentes flamejantes que se enrolavam entre si; assustada com isso, pediu a um adivinho para interpretar esse sonho e descobriu que o bebê destruiria Troia e todo seu território. Atentem-se que essa é uma tópica (passagem que sempre se repete) da mitologia grega, conforme vimos nos mencionados posts sobre mitologia.

Continuando. Páris teve a ingrata tarefa de eleger qual das três deusas era a mais bela. Como suborno pouco é bobagem, as deusas em polvorosa tentaram, cada uma em causa própria, influenciar Páris.  Atena/Minerva ofereceu a chefia de uma histórica e vitoriosa guerra; Hera/Juno ofereceu a ele a glória de ser o rei absoluto de toda a Europa e Ásia; Afrodite/Vênus garantiu a ele o amor da mais bela mulher do mundo. Páris escolheu Afrodite/Vênus.

Esse episódio ficou conhecido como o pomo da discórdia e foi extensamente representado na pintura. Elegi apenas algumas das inúmeras imagens.

 O julgamento de Páris, de Peter Paul Rubens

O julgamento de Páris, de Joachim Wtewael 

O julgamento de Páris, de Jean-Baptiste Regnault

O julgamento de Paris, de Renoir

O julgamento de Paris, de François Xavier Fabre

Continuando com a fase pré-Ilíada, sabem  qual era a mulher mais bela do mundo? Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. 

Depois desse “julgamento” Páris foi para Esparta e se aproveitando da ausência de Menelau seduziu e raptou Helena.  Esse episódio é controverso, pois uns dizem que Helena foi raptada; outros, que ela foi por livre e espontânea vontade. Fico com a segunda hipótese porque a deusa prometeu a Páris o amor da mais bela mulher do mundo, logo, acho que ela se apaixonou por ele. De todo modo, sabe-se que ela levou algumas escravas e tesouros consigo e deixou a filha Hermione. Esse fato somado aos acontecimentos pós-Ilíada nos mostram que ela estava bem contentinha com Páris e os troianos.

Essa é mais uma passagem bem explorada pelas artes plásticas. Reparem que a controvérsia da ida de Helena para Troia é mantida nas imagens.

Vênus apresentando Helena a Paris, de Gavin Hamilton

O rapto de Helena, de Francesco Primaticcio

O rapto de Helena, de Guido Reni

Indo por livre espontânea vontade ou não, em Troia, Helena viveu como esposa de Páris por quem parece ter se encantado, encantando também a todos  com sua beleza.

A corte de Helena e Paris, de Jacques-Louis David

Eis o começo da Guerra de Troia. Ao saber da traição, Menelau pede auxílio de seu irmão Agamémnon – que não é o que se pode chamar de uma pessoa escrupulosa – para convencer os grandes reis e generais da Grécia a perpetrar uma guerra contra os troianos. Assim, foram convencidos a fazer parte da marcha contra os troianos o rei de Ítaca, Odisseu/Ulisses e vários outros grandes generais das províncias gregas. Com más intenções, Agamémnon vislumbrou nos acontecimentos uma oportunidade para conquistar Troia, que tinha fama de impenetrável.

Ao saber da Guerra, Peleu, o pai de Aquiles ouviu de um oráculo que seu filho morreria junto aos muros de Troia. Para evitar esse acontecimento, Peleu disfarça Aquiles de mulher e o esconde em meio às filhas de Licomedes, rei de Ciros.

Aquiles com as filhas de Licomedes, de Poussin

Odisseu/Ulisses também houve de um oráculo que Troia não seria conquistada se Aquiles não fosse junto e acaba por encontrá-lo na casa de Licomedes.

Aquiles descoberto por Ulisses entre as filhas de Licomedes, de Peter Paul Rubens

Antes de começar a tratar dos acontecimentos de Ilíada, devo ressaltar que o episódio do pomo da discórdia foi crucial para entender porque parte dos deuses intercediam em favor dos troianos e outra parte deles em favor dos aqueus (gregos). É claro que Afrodite/ Vênus, a escolhida por Páris, sempre fica do lado deste e, consequentemente, dos troianos. As deusas que não foram contempladas (Hera/Juno e Atenas/Minerva) ficam do lado dos aqueus (gregos). Os outros deuses envolvidos defendem o povo eleito pela(s) a(s) deusa(s) com a qual(is) têm maior ligação. Destaque para o papel de Zeus/Júpiter, que ora defende os gregos, ora os troianos; isso ocorre porque para ele é difícil optar, pois Hera/Juno é sua esposa, Atenas/Minerva é sua filha e Afrodite/Vênus para alguns historiadores é filha de Zeus/Júpiter também.

Agora, vamos ilustrar os fatos narrados em Ilíada, que retrata, no décimo e último ano da Guerra de Troia, a ira de Aquiles diante de dois episódios: a tomada de sua escrava Briseida por Agamémnon, o grego inescrupuloso, e a morte de seu primo e amigo Pátroclo. São esses episódios que fazem Aquiles sair da guerra e depois voltar para a guerra. Ao resumo:

Crises, sacerdote de Apolo/Febo, pede a Agamémnon que lhe devolva a filha Criseida, que foi tomada como espólio de guerra depois de um assalto a Tebas. Seu pedido não é atendido, e Apolo/Febo dizima os gregos e seus animais das praias de Troia. Diante da fúria de Apolo/Febo, Agamémnon concorda em devolver Criseida a seu pai, mas pede a troca desta por outra escrava e toma Briseida, escrava e amante de Aquiles, em recompensa pela perda de Criseida. (Primeira ira de Aquiles) Irado, Aquiles quer atacar Agamémnon, mas é impedido por Atenas/Minerva. Aquiles sai da guerra e pede à sua mãe, Tétis, para que solicite a Zeus/Júpiter para interceder em favor dos troianos para castigar Agamémnon.  

Júpiter e Tetis, de Dominique Ingres (Museu Granet, em Aix-en-Provence)

Zeus/Júpiter concorda em ajudar Tétis e, em sonho, ordena que Agamémnon arme os exércitos. Páris propõe um duelo para decidir o destino da guerra, sendo Helena – esposa de Menelau, como prêmio. Menelau vence, mas Páris não sucumbe porque é ajudado por Afrodite/Vênus que o conduz aos braços de Helena. Os combates se inciam e os grandes heróis se digladiam. Zeus/Júpiter proíbe a interferência dos deuses. Hera/Juno engana Zeus/Júpiter e ajuda os gregos, que estavam em desvantagem. Mesmo com a ajuda dos deuses, os gregos vão perdendo a guerra. Agamêmnon reconhece seu erro ao desprezar a força de Aquiles e sugere uma Embaixada para parlamentar com ele e oferecer-lhe Briseida.

Os embaixadores de Agamémnon na tenda de Aquiles, de Dominique Ingres

Aquiles rejeita a oferta dos embaixadores. Paralelamente, convencido por Nestor, Pátrocolo, primo e grande amigo de Aquiles, pede a armadura e as armas de Aquiles para entrar na luta fingindo ser Aquiles, situação em que é morto por Heitor, um grande guerreiro. 

Aquiles chora sobre o corpo de Patroclo, de Gavin Hamilton

Aquiles, ao saber da morte de Pátroclo, fica abatido e e pede  à sua mãe que providencie novas armas para voltar para guerra.

Aquiles e o corpo de Patroclo, de Jacques-Louis David

Thetis bringing armor to Achilles. 1806. Benjamin West.:

Tétis traz armas para Aquiles, de Benjamin West

Agamémnon e  Aquiles fazem as pazes, e Briseida é devolvida a Aquiles.

O retorno de Briseida a Aquiles, de Peter Paul Rubens

Aquiles volta irado para a Guerra de Troia (Segunda ira de Aquiles). Nessa batalha furiosa, os deuses participam livremente. Hera/Juno, Hermes/Mercúrio, Atenas/Minerva, Poseidon/Netuno e Hefesto/Vulcano lutam ao lado dos gregos; Áries/Marte, Ártemis/Diana, Apolo/Febo e Afrodite/Vênus, ao lado dos troianos.

A volta de Aquiles à guerra e sua fúria contra Heitor causa tensão entre os troianos.

Heitor se despede de Andrômaca, de Luca Ferrari

Finalmente no enfrentamento dos dois grandes rivais, Aquiles mata Heitor e desonrando seu corpo ao arrastá-lo pelo acampamento.

Aquiles vence Heitor, de Peter Paul Rubens

Achille tuant Hector - Rafael Tejeo. Espagnol. 1752-1850:

Aquiles matando Heitor, de Rafael Tejeo

Aquiles arrastando o corpo de Heitor em frente às portas de Troia, de Franz Matsch

Aquiles arrasta o corpo de Heitor em volta dos muros de Troia, de Donato Creti

Vingança feita, Aquiles promove os funerais de Pátroclo. 

O funeral de Patroclo, de Jacques-Louis David

Príamo  implora a Aquiles o corpo do filho, o irado fica comovido, devolve o corpo e são concedidos 10 dias de trégua para a preparação do  funeral de Heitor. 

Priam asking Achilles for the return of Hectors body.1876. Theobold Ccartran.:

Príamo pedindo a Aquiles a devolução do corpo de Heitor, de Theobold Cartran

Priam pleading with Achilles for the body of Hector. 1775. Gavin Hamilton.:

Príamo implorando a Aquiles o corpo de Heitor, de Gavin Hamilton

Jacques-Louis David, The Pain of Andromache:

O sofrimento de Andrômaca, de Jean-Louis David

Agora vamos aos acontecimentos pós-Ilíada. Infelizmente, Aquiles morre, mas antes de tratar da morte dele, falarei do nascimento. Aquiles é filho de Peleu e da deusa Tétis, logo um semideus, porém mortal. Após seu nascimento, na tentativa de fazê-lo imortal, sua mãe mergulha-o no rio Estige (Styx), o rio da invulnerabilidade, um dos rios do Tártaro, na tentativa de fazê-lo imortal. Ela pega o Aquiles bebê pelo calcanhar/tornozelo e o mergulha nessas águas. 

Tétis mergulhando o pequeno Aquiles no rio Styx, de Peter Paul Rubens

Como consequência, por não ter sido invulnerabilizado, seu calcanhar/tornozelo ficou suscetível, vulnerável (daí as expressões calcanhar de Aquiles e tendão de Aquiles).

Temos várias versões sobre a morte de Aquiles. Uma delas diz que ele recebeu uma flechada, de Páris, no calcanhar. Mas isso é pouco provável, pois Páris é conhecido por sua covardia. outros dizem que Aquiles morreu durante a Guerra de Troia pouco depois de ter matado Heitor; outros dizem que ele ainda viveu muito tempo após a Guerra. A versão mais difundida é que ele morreu de uma flechada no calcanhar, mas ficamos sem ter certeza sobre quando e por quem.

A morte de Aquiles, de Peter Paul Rubens

Após a morte de Aquiles, Odisseu/Ulisses arquitetou um plano: eles construiriam um grande cavalo de pau oco, onde encheriam de guerreiros e dariam de presente aos troianos (daí a expressão presente de grego) a guisa de rendição. Os troianos receberam o “presente”  e o levaram para o interior da cidade. Enquanto os troianos embriagados estavam comemorado a vitória, os guerreiros saíram do interior do cavalo, mataram aos troianos e abririam os portões para o restante das tropas gregas terminara conquista. Esse famoso episódio ficou conhecido como o cavalo de Troia.

A procissão do cavalo de Troia, de Domenico Tiepolo

Assim, os gregos venceram a Guerra de Troia, cumprindo a profecia de que Páris colocaria Troia em perdição. As mulheres – inclusive a rainha Hécuba, a princesa Cassandra e Andrômaca, viúva de Heitor – foram escravizadas; o rei Príamo e a maioria dos homens foram mortos.

Que fim levou Helena? Depois da morte de Páris, durante a guerra, ela se casou com Dêifobo. com o final da guerra, Menelau matou Dêifobo e recuperou sua esposa, levando-a de volta a Esparta. Alguns dizem que ele quis puni-la pela traição, mas ela soube aplacar a ira dele despindo-se e seduzindo-o. Eh… ela era linda e danada.

A partir dessa Guerra, temos mais dois grandes épicos: Odisseia, também de Homero, que narra o retorno de Odisseu/Ulisses a Ítaca, e Eneida, de Virgílio, que discorre sobre o único sobrevivente troiano, Enéias, que será o fundador Épico de Roma. Aguardem novos posts. 

Muito +

Veja a série Entendendo a Mitologia

Veja a série Foco nas Artes 

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