Entendendo a mitologia: a origem

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Na Teogonia de Hesíodo aprendemos a origem dos deuses supremos. A partir desses ensinamentos, resolvi montar uma árvore genealógica para facilitar minha compreensão de todas as relações de parentescos para penetrar melhor nas tragédias gregas. Clique na imagem abaixo para ver a árvore em tamanho legível. 

 

Bem, uma das primeiras dificuldades que temos é a duplicidade de nomes de vários deuses, que têm nome grego e nome romano, por isso sempre vou usar os nomes juntos, os que estão marcados com cores diferentes na árvore acima.

Outra dificuldade é a imortalidade dos deuses. Explicando melhor: como eles não morrem, convivem várias gerações que se acasalam entre si, aumentando nossa confusão.

Vamos aos deuses. Segundo Hesíodo, no começo era o Caos, o vazio primitivo, que vivia com Gaia (Gea/Terra) no Tártaro, a escuridão primeva, e Eros/Cupido (atração amorosa). Nesse contexto, foram gerados assexuadamente Hemera (dia), Nix (noite), Ponto (água primordial) e Urano (céu). Se você percebeu alguma semelhança com o gêneses da bíblia, não é mera coincidência. Nossa cultura cristã não é original. Continuando com os deuses, Nix, também assexuadamente, gerou Tânatos (morte), Hipos (sono) e Oniro (sonhos).

De Urano (céu) e Gaia (terra) nasceram Crio, deus do inverno, do frio dos seres marítimos; Jápeto, deus do tempo de vida humano e da mortalidade; Têmis, deusa da justiça, da lei; Mnemosine, deusa da memória; Cronos/Saturno, deus do tempo; Oceano, deus da água doce;  Céos, deus da inteligência; Febe, deusa da lua; Heperião, Teia, Tétis.

Vejam abaixo o afresco de Ara Pacis, em Roma, com a imagem de Gaia e os filhos.

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Na segunda geração de deuses, surgiram os famosos titãs, os doze deuses filhos de Urano (céu) e Gaia (Gea/Terra). Desses titãs, muitos são velhos conhecidos nossos. Vejam só o Oceano, deus que dá vida às ninfas, como figura central da Fontana de Trevi, em Roma.

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A Mnemosine também nós é bem conhecida, pois é a deusa da memória, é ela que Homero invoca para se lembrar dos fatos ocorridos há muito tempo. É dela também que vem o termo amnésia (a= não; mnésia= memória).  Essa deusa se uniu a Zeus/Júpiter, seu sobrinho e gerou nove musas. Sobre isso vou falar melhor em outro post, mas veja a imagem abaixo da mãe e das nove filhas. 

 

Contudo, creio que dentre os titãs os mais conhecidos de nós são Cronos/Saturno e Rea/Cibele, principalmente ele, o deus do tempo. Vou explicar. Nem tudo são flores no Olimpo. A imortalidade era pouca coisa para esses deuses, que também queriam mais poder. Cronos/Saturno, o mais jovens dos titãs, assumiu a liderança da revolta contra o pai Urano e, usando uma foice dada por Gaia, sua mãe, fez picadinho de seu pai. Do sangue de Urano, que caiu sobre a terra, nasceram os gigante, as erínias e as melíades. Apesar do esquartejamento, os deuses são imortais, não se esqueçam.

Abrirei um hiato aqui. Vocês devem ter estranhado eu ainda não ter mencionado Afrodite/Vênus não é? Há controvérsias sobre seu surgimento, mas Hesíodo diz que ela nasceu quando Cronos/Saturno fez picadinho de seu pai. O deus do tempo cortou os órgãos genitais de Urano e os arremessou ao mar; da espuma feita com esse impacto nasceu Afrodite/ Vênus numa concha.  Agora dá para entender melhor os elementos da imagem abaixo.

O nascimento de Vênus, de Botticcelli

Dizem que Eros/Cupido (atração amorosa) é filho de Afrodite/Vênus (amor sensual) com Ares/Marte (deus da guerra), contudo não é possível ter certeza, pois essa é apenas uma das versões. De todo modo, eles representados juntos frequentemente. Porém, vejam a imagem abaixo. 

Marte, Vênus e Cupido, de Guercino

Vejam que estão presentes na imagem Afrodite/Vênus e Áries/Marte, supostos pais de Eros/Cupido. Olhem outro quadro que eu adoro:

Cronos admoesta Eros na presença de Afrodite e Ares, de Guercino

Estão presentes na cena Afrodite/Vênus e Áries/Marte, supostos pais de Eros/Cupido, e Cronos/Saturno, o que cortou as partes genitais de Urano, dando origem à Afrodite/Vênus. Percebem como é confuso?

Afrodite/Vênus também é considerada a deusa da fertilidade. Na antiguidade clássica, as mulheres andavam com a imagem dela (como fazemos com os santinhos hoje), buscando auxílio na vida amorosa.

+ Origem do culto à madona

Voltando a Cronos/Saturno. O tempo passa e os deuses se acasalam. O reinado de Cronos/Saturno ocorreu durante a Idade de Ouro, época paradisíaca, ele e sua irmão Rea/Cibele deram origem à terceira geração de deuses que nos são mais conhecidos. 

Genealogia deuses7

Como terceira geração de titãs temos Hera/Juno, deusa das bodas, da maternidade, do céu e das esposas. Sua imagem pode ser reconhecida por causa do atributo romã, que sempre carrega; Deméter/Ceres, deusa da agricultura, da terra cultivada. Seu nome deu origem a cereal; Hades/Plutão, deus do mundo inferior e dos mortos; Poseidon/Netuno, deus do mar dos terremotos. Pode ser reconhecido pelo tridente que carrega e pelos golfinhos que o acompanham; Zeus/Júpiter – deus dos raios; Héstia/Vesta, deusa do lar, da lareira, da arquitetura, da vida doméstica, da família e do estado. 

Vejamos um pouquinho desses deusas nas artes plásticas.

Ceres com as ninfas, de Peter Paul Rubens

Percebam que Demeter/Ceres é a deusa da agricultura, dos cereais, da abundância, da fartura.

Alegoria conjugal (1530), de Ticiano (Museu do Louvre)

Na imagem acima temos Áries/Marte com armadura, Afrodite/Vênus com um bola de cristal, Hestia/Vesta com coroa, Himeneu com uma cesta de flores e frutas e Eros/Cupido, com flechas. Como Héstia/Vesta é a deusa do matrimônio, aparece na imagem para tentar garantir a felicidade conjugal de Áries/Marte e Afrodite/Vênus.

O rapto  de Perséfone, de Peter Paul Rubens

Percebam na imagem acima Hades/Plutão, deus do submundo, raptando Perséfone/Proserpina

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Já o Poseidon/Netuno já apareceu neste blog durante algumas viagens minhas. Fonte de Netuno, na Piazza della Signoria, em Florença (imagem acima); Fonte de Netuno no Palácio de Schönbrunn, em Viena (imagem abaixo).

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Zeus/Júpiter e Hera/Juno aparecem juntos em várias imagens, mas vou mostrar apenas duas.

Júpiter e Juno, de Frans Christoph Janneck

Júpiter e Juno, de Peter Paul Rubens

Voltando aos acontecimentos trágicos. Como Cronos/Saturno tinha medo de ser destronado por causa de uma maldição [aqui se faz, aqui se paga], ele engolia os filhos ao nascerem para evitar o destronamento. Parece inútil, não?, já que os deuses são imortais. Agora, creio que as imagens abaixo fazem mais sentido.

Saturno devorando seu filho, de Goya (Museu do Prado)

A comilança dos filhos não foi integral, Zeus/Júpiter escapou porque Rea/Cibele salvou o filho enganando Cronos/Saturno. Ela enrolou uma pedra em um pano e o deu para ele comer. Ele engoliu tudo sem perceber a diferença de sabor.

Saturno devorando seu filho, de Peter Paul Rubens (Museu do Louvre)

Zeus/Júpiter cresceu distante da família, pois Cronos/Saturno não podia saber que ele estava vivo. Contudo, quando ele cresceu, quis vingança. Pediu a sua prima Métis, a prudência, uma ninfa filha de Oceano e Tétis, que desse uma poção mágica Cronos/Saturno, poção essa que o fez regurgitar todos os filhos devorados.

Como ato contínuo, Zeus/Júpiter destronou o pai, prendeu-o com correntes e o enviou para Hades/Plutão, o mundo subterrâneo. Como se isso não bastasse, Zeus/Júpiter mandou os irmãos titãs para o Tártaro (escuridão). Cronos/Saturno foi encontrado dez anos depois, período de muita luta, pelos irmãos titãs afastados no Tártaro (escuridão). Se você pensou que os irmãos titãs isolados quiseram vingança, acertou. Eles quiseram reconquistar o poder de Zeus/Júpiter e dos deuses do Olimpo (um monte bem alto, espécie de mansão dos deuses). 

Vamos ilustrar o que foi dito?

Júpiter destrói os titãs (1533), de Perino del Vaga

Na imagem acima temos Zeus/Júpiter, no centro, sobre sua águia e com deuses espalhados ao seu redor, todos bem caracterizados: do lado esquerdo, Héracles/Hércules (de pé, segurando a clava), Dionísio/Baco (com a coroa de uvas), Hermes/Mercúrio (com o pétaso); do lado direito, Hera/Juno (e seu pavão), Áries/Marte (com o elmo e a lança), Afrodite/Vênus (sobre os querubins e Eros/Cupido), Atena/Minerva (com o elmo). Na parte debaixo estão os titãs isolados no Tártaro (escuridão).

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A batalha entre os deuses e os titãs (1600), de Joachim Wtewael

Na imagem acima, novamente temos os titãs na parte de baixo. Na parte de cima, da esquerda para a direita, temos, também caracterizados: Hades/Plutão segurando a foice, Hermes/Mercúrio com o caduceu, Poseidon/Netuno com o tridente, Zeus/Júpiter com o raio, Hera/Juno com o cetro e Áries/Martes com o elmo e a lança.

Já estou para acabar este post, mas antes tenho que esclarecer mais alguns detalhes. Parece que há muito deus de água/mar/oceano, né? Ponto é o deus do mar, da água primordial; Oceano é a água doce, o rio que circundava terra; Poseidon/Netuno é o deus das fontes e das correntes de água, dos terremotos.

Não coloquei na árvore para não ficar muito confuso, mas Ponto (água primordial), deus do mar, gerou com Gaia (Gea, Terra) o deus Fórcis, uma divindade marinha. Porém, infelizmente, Fórcis gerou maus frutos; casou-se com sua irmã Ceto e gerou filhos monstruosos (Gorgonas, Ladão, Greias e Equidna, a ninfa víbora).

Outro detalhe é que Oceano, Têmis e Prometeu não se juntaram aos titãs na guerra de Cronos/Saturno contra Urano. 

Agora já chega. Há muito para falar de Zeus e sua filharada, mas ficará para outro post. Este já está gigante.

Muito +

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