Entendendo a mitologia: Zeus e os seus

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 No primeiro post sobre mitologia grega, tratei dos deuses supremos, os quais, segundo Hesíodo, deram origem a todos os demais. Recordemos a árvore genealógica:

Genealogia deuses

Não vou explicar todas as relações da imagem acima porque já fiz isso no outro post. Neste post vou tratar da prole de Zeus, que fecundava tudo que se movia.

Vocês se lembram que no primeiro post sobre mitologia, a origem dos deuses, eu disse que Métis ajudou Zeus/Júpiter ao dar uma poção para Cronos/Saturno que o fez regurgitar os titãs que havia devorado? Então, ela bem que tentou fugir de Zeus/Júpiter, seu primo (mesmo porque é a deusa da prudência), mas não teve jeito, ele a engravidou. Métis tinha alguns dons especiais, além da inteligência, da astúcia e da prudência, ela conseguia se metamorfosear, se transformar em outros elementos, assumir outras formas (como os super-gêmeos ativar). 

Quando Métis estava grávida, Gaia (terra) profetizou que ela teria dois filhos: a primeira seria igual a Zeus/Júpiter em força e sabedoria; o segundo, reis de homens e deuses. Como as histórias sempre se repetem, Zeus/Júpiter quis evitar que a profecia se realizasse e bolou um plano. Ele pede para Métis demonstrar as formas que pode assumir e, depois de pedir algumas, ele pergunta se ela pode se transformar numa gota d’água, e ela assim se transforma. Ele sorve a gota d’água e Métis grávida vai parar na barriga de Zeus/Júpiter. Ele imitou seu pai Cronos/Saturno que devorou os filhos. Ele adquiriu as características de Métis e a barriga grávida também, a qual foi para a cabeça. Assim, o parto foi feito pela cabeça de Zeus/Júpiter, que ao dar uivos de dor, foi ajudado por seu filho Hefesto/Vulcano e Prometeu. Estes chegaram com um machado e abriram a cabeça do deus-mor (não se esqueçam que os deuses não morrem). Daí nasceu Palas Atena/Minerva, a deusa da sabedoria, da astúcia, que já nasce adulta e com seus atributos característicos (capacete, lança, escudo).

Vejamos algumas imagens.

O nascimento de Minerva, de René Antoine Houasse

Zeus dando à luz Atena, de Rudolph Tegner

Métis foi a primeira esposa de Zeus/Júpiter, mas não foi a principal. Hera/Juno foi a segunda e principal esposa dele, embora ele a tenha traído até com o vento. Hera/Juno, como deusa, sabia de tudo que acontecia, era ciumentíssima e procurava punir as mulheres que se envolviam com seu marido. Eram muitas. Hera/Juno teve muito trabalho.

Júpiter e Juno, de Carracci

Mesmo jurando amor e declarando que Hera/Juno era única, conforme vemos em Ilíada, o que mais Zeus/Júpiter fez foi pular a cerca. Vejamos!

Genealogia deuses2

Dessa filharada de Zeus/Júpiter, os mais famosos e descendentes de seu núcleo familiar são Palas Atena/Minerva, a deusa da sabedoria; Artemis/Diana, a deusa da caça, da vida selvagem; Apolo/Febo, o deus da música; Áries/Marte, o deus da guerra; Hefesto/Vulcano, deus da tecnologia (ferreiro, artesão, escultor, metalúrgico, fogo, vulcões).

 Percebam que Zeus/Júpiter teve filhos com duas de suas irmãs (Hera/Juno e Deméter/Ceres), com sua tia Minemosine (com quem teve 9 musas).  

  • Calíope – Musa da Eloquência
  • Clio ou Kleio – Musa da História
  • Erato – Musa da Poesia romântica
  • Euterpe – Musa da Música
  • Melpômene – Musa da tragédia e alegria
  • Polimnia – Musa da poesia lírica
  • Terpsícore – Musa da dança
  • Talia – Musa da comédia
  • Urânia – Musa da astronomia e da astrologia

É fácil reconhecermos as imagens das musas porque elas estão sempre juntas, dançando ou em situação de alegria.

 
Apolo e as musas no Parnaso, de Anton Raphael Mengs
 
Apolo e as musas, Poussin (Museu do Prado) 
 
Percebam que por serem relacionadas à musica, dança, instrumentos musicais, as musas são sempre representadas com Apolo/Febo, o deus da música.

Além da prima Métis, da tia Mnemosine e das irmãs Hera/Juno, Deméter/Ceres, Zeus/Júpiter também se envolveu com outra prima, Leto/Latona, com quem teve os gêmeos Apolo/Febo e Artêmis/Diana (ver genealogia acima).

Latona e seus filhos Apolo e Diana, de Williams Henry Rinehart (Metropolitan Museum)

Ainda que distante, outra relação dentro de seu próprio clã foi a de  Zeus/Júpiter e com Maia, filha de Atlas, que era primo de Zeus/Júpiter. Com Maia, o deus-mor do Olimpo teve Hermes/Mercúrio, o belo mensageiro dos deuses.

Hermes leva Psique para o Olimpo, de Rafael de Sanzio

Agora vou tratar dos relacionamentos de Zeus/Júpiter com mulheres mais distantes do núcleo familiar. As aventuras extraconjugais desse Deus foram inúmeras. Como Hera/Juno era muito ciumenta, Zeus/Júpiter se utilizava dos poderes adquiridos ao engolir Métis e se transformava em tudo que queria. Puro despiste. Vamos às histórias. 

Um mito interessante é o de Leda, rainha de Esparta, casada com Tíndaro. Zeus/Júpiter, o incorrigível, transformou-se em um cisne e seduziu Leda, que chocou dois ovos, dos quais nasceram Castor, Pólux, Clitemnestra e ninguém menos que Helena de Troia. Helena e Pólux foram adotados como filhos de sangue de Tíndaro.

Creio que esse é um dos mitos mais explorados pelas artes plásticas, trouxe apenas três exemplos, mas há muitos outros.

Leda e o cisne (1504-1508), de Leonardo Da Vinci 

Leda e o cisne (1842), de François-Edouard Picot

Leda e o cisne, de Paul Cèzanne

Outro mito interessante é o de Dânae, filha de Acrísio, rei de Argos. Por não ter filhos, Acrísio procura um oráculo, o qual o alerta que seria morto por seu neto, filho de Dânae, mesmo que se escondesse onde fosse. Apavorado com a profecia, Acrísio aprisiona a virgem Dânae numa torre, na tentativa de impedir a realização da profecia. Porém, ele não a protegeu de Zeus/Júpiter. Danou-se. O deus-mor do Olimpo ficou encantado com a bela princesa e se transformou numa chuva de ouro e penetrou a torre onde estava Dânae, fecundando-a. Foi assim que nasceu Perseu. Vamos às imagens.

Dânae, de Léon Comerre

Dânae e a abundância de ouro, de Ticiano

Para se livrar da filha e do neto, Acrísio ordenou que eles fossem lançados ao mar num baú de madeira. Contudo, a pedido de Zeus/Júpiter pediu a seu irmão Poseidon/Netuno, deus do mar, para salvar as vítimas, que foram levadas a ilha de Sérifo, onde foram encontrados por pescadores e levados até o monarca local, Polidectes. Este acaba se apaixonando por Dânae, e Perseu é criado por Dictis, irmão do rei. Querendo se casar com Dânae, mas com medo que Perseu, já crescido, se oponha, o rei manda-o matar a Medusa, pensando que Perseu será assassinado por ela. Só que não. Perseu volta com a cabeça de Medusa durante os jogos atléticos. na platéia está o rei Acrísio, seu avô, que é atingido por um dardo lançado por Perseu. A profecia se cumpre.

Perseu com a cabeça de Medusa, Florença 

Agora vamos ao mito de Europa, filha do rei da Fenícia, Agenor, e irmã de Cadmo. Europa foi raptada por Zeus, que havia assumido a forma de um touro, levando-a mar afora para Creta. Seu irmão Cadmo a procurou muito e durante a jornada fundou a cidade de Tebas. Em Creta, Europa teve os filhos do touro-Zeus: Minos, Radamanto e Sarpedão. Minos mais tarde se tornou rei de Creta e introduziu o culto do touro na ilha.Vejamos imagens. 

Zeus e Europa, de Noël-Nicolas Coypel

File:Rubens - El rapto de Europa.jpg

O rapto de Europa (1628-1629), de Peter Paul Rubens  

Novo mito. Semele era filha de Cadmo, rei de Tebas. Ela se rendeu à Zeus/Júpiter e, quando estava grávida, pediu a ele para que a mostrasse todo seu esplendor. Quando ele se apresentou como deus olímpico, envolto em luz radiante, ela morreu fulminada. O deus do Olimpo retirou de seu ventre o bebê em gestação e terminou de gerá-lo em sua coxa. Assim nasceu Dionísio/Baco, que mais tarde foi buscar sua mãe no Hades/Plutão, conduzindo-a ao Olimpo sob condição de deusa. Mais imagens.

Morte de Semele, de Peter Paul Rubens

O triunfo de Baco, de Cornelis de Vos (Museu do Prado)

Não posso deixar de falar Alcmena, neta de Perseu, filha de Electrião, rei de Micenas, e esposa de Anfitrião. Enquanto este estava na guerra, o espertalhão Zeus/Júpiter tomou assumiu a forma do marido de Alcmena e a fecundou. Assim nasceu Héracles/Hércules.

Zeus e Alcmena, de Giulio Romano

Alcmena era mortal, logo, seu filho com um deus era considerado semideus ou herói. Héracles/Hércules era a personificação do herói, tal qual consta em nosso imaginário coletivo: forte e belicoso.

Hércules vencendo Diomedes, de Charles Le Brun

Não vou contar aqui o quanto Hera/Juno implicou com as amantes e com os filhos bastardos de Zeus/Júpiter. Muitos deles foram perseguidos, outros transformados em animais etc. Ela era ciumenta e vingativa.

É… Zeus/Júpiter não era fraco, não. Provavelmente teve muitos outros filhos, mas creio que os principais foram esses.

Muito +

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