Foco nas Artes: A liberdade guiando o povo (Delacroix)

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Mais uma da série Foco nas Artes, post sobre o contexto histórico e as derivações de uma obra de arte famosa.

Bem vocês sabem que eu fui umas quatro vezes ao Louvre e fiquei lá dentro por quase 10h, somando todas as visitas. Fiz um post resumindo o que considerei mais interessante.

+ Museu do Louvre

Pois é, nesse post do Louvre citei uma obra que adoro e sobre a qual quero falar mais. Dessa vez, vou tratar de…

A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix

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Muita gente pensa que esse quadro foi símbolo da Revolução Francesa, mas não. Ele dialoga com esta revolução, mesmo porque a temática é a mesma, porém o contexto em questão é a Revolução de 1830, em Paris. Vamos aos fatos históricos.

O contexto histórico

O quadro de Eugène Delacroix que atualmente faz parte do acervo do Louvre foi pintado em 1830, bem no calor do momento. Bem, e qual era esse momento? Com a derrota de Napoleão Bonaparte, o Congresso de Viena (1814-1815), composto pelas potências vencedoras, estabeleceu novas demarcações geográficas e novas diretrizes políticas para a Europa, além de favorecer o restabelecimento da monarquia em vários países.

Obviamente, o novo empoderamento da monarquia não agradou os burgueses e o povo em geral. A situação foi ficando cada vez mais crítica, causando a propagação de nacionalismo, como no caso de Itália e Alemanha, que não demorarão a unificar suas regiões; a subprodução agrícola, que resultou em alta de preço dos alimentos; o subconsumo industrial, que causou fechamento de fábricas e aumento do desemprego… Enfim, essa situação desagradou burgueses (os donos de bens de produção que viam suas fábricas fecharem), trabalhadores urbanos (proletariado que perdia seu emprego nas fábricas), trabalhador rural (pequenos produtores e trabalhadores do campo que percebiam a subprodução dos gêneros alimentícios, o que acarretava prejuízos e desemprego). Para piorar o cenários, todos esses atores estavam à margem do poder político, ou seja, todos foram atingidos pela marginalização política e crise econômica.

Esse contexto fez surgir várias revoluções de 1830 em várias cidades europeias, sendo que uma das mais famosas é a Revolução de 1830 de Paris.

A obra

Delacroix, pintor romântico, pintou sua obra mais famosa considerando o contexto político citado acima. Percebam que na imagem são representadas algumas classes sociais: os burgueses, com casaca, cartola e arma de fogo mais sofisticada; o proletariado com roupas mais simples, menos alinhadas, armas de fogo mais simples ou armas brancas; os excluídos, senhora de lenço e ajoelhada aos pés da “Liberdade”; as tropas, que estão bem atrás, em segundo plano, represento a monarquia.

Os que leram a obra de Victor Hugo, Os miseráveis, poderão perceber nessa pintura a situação política ilustrada: barricadas e revolução com participação de burgueses e proletários. Aliás, há quem diga que o garoto armado foi inspiração para o personagem Gavroche, do livro de Victor Hugo.

+ Resenha: Os miseráveis (Victor Hugo)

A “senhora” Liberdade é uma alegoria, uma espécie de divindade que sempre aparece nua ou semi nua e indiferente às questões terrenas. Não neste caso. Delacroix utiliza uma imagem clássica, mas politizada. Em uma mão, a alegoria porta uma arma; na outra, a bandeira instituída durante a Revolução Francesa, representando liberdade (azul), igualdade (branca) e fraternidade (vermelha). Reparem que a alegoria está acima de todos: a liberdade acima de qualquer coisa. Se prestarem atenção, verão as duas torres da catedral de Notre Dame em segundo plano, bem ao fundo. 

Percebam que o posicionamento dos personagens revelam muito bem a situação: as tropas (monarquia) atrás e vencida; alguns mortos (na luta sempre há derramamento de sangue); burgueses e proletários, prontos, em posição de combate; a liberdade, acima de tudo e de todos, guiando o povo e sendo observada por ele.

A liberdade é uma condição muito defendida em revoluções e bastante auferida na construção de novas nações. Não foi por acaso que essa pintura inspirou a Estátua da Liberdade, de Nova York, presente dos franceses ao povo americano. Novamente a Liberdade é representada pelo feminino. Legal!

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As ressonâncias do quadro

O quadro de Delacroix tem servido de inspiração para várias releituras, revisitas e diálogos. Contudo, vou citar apenas duas releituras.

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Pierre Adrien Sollier, artista francês, revisitou a obra de Delacroix, substituindo os personagens por desenhos de bonecos de Playmobil.

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Na ocasião do atentado terrorista ao semanário Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, em Paris, Marcelo Csettkey homenageou o povo francês fazendo esse cartum. Nessa releitura, o protagonismo da mensagem foi invertido: em vez de a liberdade guiar o povo, agora o povo guiou a liberdade na marcha republicana em defesa da simbologia da bandeira: liberdade, igualdade e fraternidade.

Muito +

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