Foco nas Artes: Guernica (Picasso)

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Vamos a mais um post de Foco nas Artes, série em que eu comento o contexto histórico e as influências de uma obra de arte famosinha.

Quando estive em Madri, há poucos anos atrás, tive a oportunidade de visitar museus fantásticos e até fiz um post sobre isso.

+ Madri: museus incríveis

Um desses museus era a Reina Sofia, que tem um ótimo acervo de arte moderna e contemporânea, mas muito de sua fama se deve a uma obra específica:

Guernica, de Pablo Picasso

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Essa imagem não é de um quadro, é de um painel. Isso significa que, para melhor observarmos a obra, temos que nos distanciarmos um pouco, pois ela mede 350 por 782 cm. É uma obra impressionante por suas dimensões e pelo que retrata.

Contexto histórico

Pintado em 1937, Guernica representa o bombardeio sofrido pela cidade homônima da Espanha durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O bombardeio partiu das forças aéreas alemãs sob o comando de Hitler. Vejam uma imagem da cidade destruída após o bombardeio.

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Essa guerra foi um campo de ensaio para a Segunda Guerra Mundial, um dos marcos dos grandes regimes ditatoriais de direita e, liderado pelo general Franco, um dos mais contundentes regimes fascistas do século XX. 

Voltando a Picasso, embora ele já morasse na França durante o bombardeio, o fato o impactou o suficiente a ponto de produzir a obra. Há uma história repetidamente contada sobre um fato ocorrido em 1940, quando Paris estava ocupada pelos nazistas, numa revista ao apartamento de Picasso, um oficial nazi viu numa foto a reprodução de Guernica e perguntou a Picasso se havia sido ele quem tinha feito aquilo. Picasso respondeu: “Não, foram os senhores”. 

Por muitos anos essa obra ficou sob custódia e exposta no MoMA, em Nova York, já fiz um post só para esse museu por aqui, lembram? 

+ Museu de Arte Moderna de Nova York

Durante a Segunda Guerra Mundial ela foi transferida para os EUA e por pedido do próprio Picasso, ela apenas retornaria à Espanha após a morte de Franco, que ocorreu em 1975, e depois que a Espanha se tornasse democrático. Não sei se houve a transformação da forma que o pintor havia imaginado, mas é fato que Guernica retornou à Espanha em setembro de 1981.

A obra

A imagem parece confusa, porém é menos abstrata do que boa parte das obras cubistas do pintor e mais organizada do que os vestígios deixados pela realidade que retrata. Os tons quase monocromáticos não são por acaso; é possível ver algum colorido na guerra? 

A obra é de influência cubista, mas de um cubismo do artista em fase mais madura e autônoma, quando seus quadros já não se confundiam mais com os de Braque ou de Juan Gris. Compare abaixo a plasticidade semelhante dos pintores Braque, Gris e Picasso, respectivamente.

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Voltando a Guernica, é possível analisar cada personagem isoladamente e cada um, a seu modo, narra o horror da guerra. Olhando rapidamente, um desavisado pode ter a impressão  de que a obra foi criada rapidamente, que parece desenho de criança. Só que não. Picasso fez 45 estudos preliminares antes de chegar a essa versão final. No museu Reina Sofia estão expostos vários desses estudos. Vejam um desses estudos:

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Fazendo apenas um recorte da parte que mais gosto, vemos o touro e a mãe com seu filho.

Alguns dizem que a mãe que chora a morte do filho, numa alusão a Pietá. Vejamos a Pietá de Michelângelo. 

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Não tem jeito, a Pietá é uma tópica da iconografia para representar uma mãe sofrendo com o filho morto no colo. 

Partindo para o touro,  percebemos feições humanas, temos um animal mais humanizado do que os humanos que cometeram as atrocidades.

Numa perspectiva genealógica, podemos mapear como Picasso chegou a esse touro. Sabemos que Picasso adorava arte “primitiva” e chegou a visitar a Caverna de Altamira

 

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Localizada na Espanha, no município de Santillana del Mar, essa caverna conserva um importantíssimo conjunto pictórico da pré-historia, com inúmeras figuras rupestres pintadas nas paredes e no teto. Essas figuras remontam ao período paleolítico (entre 14.500 e 12.000 a. C.).

Dizem que após conhecer os desenhos de Altamira Picasso disse:  “Após Altamira, tudo parece decadente”.

Agora comparem o touro da imagem acima, Caverna de Altamira, com os estudos de touro de Picasso.

 

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Percebam que o primeiro touro da imagem de Picasso é praticamente uma cópia do da imagem de Altamira. Aos poucos, o pintor foi desbastando, desbastando, a imagem do touro, passando por fases cubistas e finalizando com uma quase abstrata. 

É quase certo que o touro de Guernica é resultado desse processo de desbastamento de imagem do touro da Caverna de Altamira somado ao impacto do horror da guerra.

Influências a partir de Guernica

Não muito longe de nós, temos reverberação das obras de Picasso. Portinari pintou painéis que dialogam diretamente com Guernica

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Percebemos a influência cubista, a plasticidade, a dramaticidade dos traços, os tons quase monocromáticos…

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Na imagem abaixo, Jovcho Savov usa a obra de Picasso para destacar a situação dos refugiados sírios fugindo de seu país, devastado pela guerra, em barcos superlotados para tentar entrar na Europa através da Grécia.

Jovcho Savov's Aegean Guernica

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As duas imagens abaixo representam obras de Ron English, artista que fez uns 50 trabalhos a partir de Guernica.

Ron English Football guernica

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Guernica talvez seja a obra mais famosa de Picasso em razão do contexto político, da dramaticidade plástica e das dimensões da obra. Ver essa obra pessoalmente é uma experiência inesquecível.

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