Intertextualidades: A pantera de Rilke e Tempo de despertar

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Não é segredo para ninguém que eu gosto de fotos, de viajar, de literatura, de cinema, de arte e de história. Logo, resolvi criar uma nova série neste blog para mesclar literatura com filmes, música, óperas, artes plásticas e o que mais for possível. Será alguma coisa no estilo tudo-junto-e-misturado. Mas calma, não será tão misturado assim, serão séries distintas. Quando eu tratar de diálogos entre textos (literários, cinematográficos, musicais etc.), será a série Intertextualidades; quando não houver esse diálogo entre textos, mas uma composição formada por eles, darei o nome Sistemáticas. Sei que parece ser a mesma coisa, mas não é, não. Com o tempo, vocês perceberão a diferença.

Este post vem inaugurar a série Intertextualidades, que tratará do “diálogo” de um texto (romance ou poesia) com alguma outra expressão artística.

Hoje venho trazer uma das misturas que mais adoro: um diálogo entre poesia e filme.  Para tanto, trago um dos meus poetas preferidos: Rainer Maria Rilke (Praga, 04/12/1875 – Montreux, 29/12/1926). Acho que ainda não falei dele neste blog; se isso ocorreu, foi apenas por falta de oportunidade. Admirem Rilke comigo, por meio do poema:

A Pantera 

(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke (tradução de Augusto de Campos)

Esse poema será melhor compreendido a partir do contexto histórico. Combinando o título e a epígrafe do poema, temos um dado interessante. Vou explicar a razão, observem a placa da imagem abaixo. 

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Essa placa/totem está, ainda hoje, no Jardin de Plantes, em Paris. Resumidamente, ela diz que o espaço foi aberto ao público em 1794 com os animais que restaram do Palácio de Versalhes (depois que a família real foi expulsa de lá, durante a Revolução Francesa, esvaziaram o Palácio). A placa nos informa também que esse é o segundo zoológico mais antigo do mundo. Evidentemente, há outras informações na placa, mas é só isso que nos interessa para entender melhor esse poema. 

Agora, já sabemos que os animais começaram a ser enjaulados para serem vistos, sobretudo pela burguesia, no final do século XVIII. Acrescento que o mesmo aconteceu com as plantas, que até esse período não faziam parte da decoração dos lares.

Voltando ao poema, temos uma pantera presa, quando ainda não havia um histórico biológico de cativeiro dentre os animais. Se acreditarmos em Darwin, de geração em geração os bichos vão se adaptando, não é? À essa pantera, e a qualquer outro bicho, estar cativo era uma condição de repressão/contenção/cerceamento etc.

Vamos aos versos. Na primeira estrofe, a ênfase está no olhar do felino nas grades, no entrave ao retorno de sua condição natural, a liberdade. Nessa estrofe, o verbo-chave é aferrar. O felino parece estar se resignando.

Na segunda estrofe – e nessa Rilke foi magnífico – é descrito o movimento da parte superior de uma das pernas da pantera, aquela parte que une a perna ao corpo (no caso dos humanos, seria o ombro). O poeta descreve essa parte numa minúcia incrível, totalmente imagética. Conseguimos visualizar  o movimento dessa parte durante o caminhar da pantera. Em síntese: o bicho está andando de um lado para o outro. 

Na terceira estrofe, a tensa paz dos músculos e a imagem que se instila e morre no coração nos remete à memória que a pantera tem de uma vida longe do cativeiro. O verbo-chave dessa estrofe é instilar.

Considerando os verbos aferrar, arrefecer e instilar, percebemos um gradual condicionamento de um felino, potencialmente feroz, à sua nova condição. Há uma dualidade entre vontade de viver o que nasceu para ser e de viver o que a condição permite.

Rilke é isso: um verbalizador de detalhes. Descreve coisas que pensamos ser indescritíveis. Ele está para a poesia como os holandeses estão para a pintura.

Agora, vamos ao filme Tempo de despertar (Awekening, Penny Marshall, 1990). 

Eis a sinopse. Em 1969, Malcolm Sayer (Robin Williams), um neurologista que trabalho num hospital psiquiátrico e lida com pacientes catatônicos. O médico percebe que os pacientes estão apenas “adormecidos”, podendo “acordar” se tiverem o estímulo adequado, no caso uma droga utilizada em pacientes com mal de Parkinson. Com autorização do hospital, ele escolhe fazer o teste com o paciente Leonard Lowe (Robert de Niro), “adormecido” por décadas. A medicação deu resultado e Leonard “volta a viver”. Com isso, a droga também foi utilizada nos outros pacientes. Tudo parecia resolvido, até as coisas saírem do controle.

Vejam abaixo, o trecho do filme em que o médico, angustiado com a situação de seus pacientes, está diante da jaula de uma pantera e ouvimos em off o poema de Rilke. O áudio está em inglês (não o consegui em português), mas vocês já leram o poema, então sabem do que se trata. Prestem atenção na pantera do filme.

Perceberam a relação do poema com o filme? Ambos tratam da possibilidade e da impossibilidade de se libertar de uma condição de vida limitada para uma vida plena, repleta de possibilidades. A angústia causada pela limitação é da pantera, mas também do médico, que sofre indiretamente com a limitação dos pacientes.

Detalhe: vocês sabem que estive no Jardin des Plantes, em Paris, conforme vimos neste post. Quando pisei lá, esse poema ficou ecoando em meus ouvidos.

Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!