Intertextualidades: Carmen, de Bizet, de Merimée, de Maria Callas e de Godard

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Vocês poderão até pensar que abordar várias versões de Carmen é narcisismo, garanto que não. Sou Carmem com M no final. Além do mais, não poderia deixar de falar dessa obra só por receio de parecer “me achona”. Vamos ao que interessa!

Começando pelo romance de Prosper Merimée, temos uma Carmen que dá um pouco de medo: uma cigana espanhola e perigosa, não apenas no sentido lascivo, mas também em termos criminais. Ela obedece à imagem estereotipada – e preconceituosa, é bom lembrar – que muitos de nós temos dos ciganos: trapaceiros, místicos e agressivos. Para resumir a estória, essa criatura perigosa, ardilosa, seduz um oficial da polícia, se safa das enrascadas em que se mete e também seduz um toureiro. Acho que a “cigana oblíqua e dissimulada” não é a Capitu, não; é a Carmen.

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Já na ópera, a Carmen, de Bizet, temos uma mulher terrivelmente envolvente. Não tem uma beleza estonteante, embora não seja feia, seu principal atrativo é o magnetismo. Sabe aquela mulher que enfeitiça os homens apenas com sua presença? Então, a Carmen, de Bizet é assim. É desse tipo de mulher que as esposas morrem de medo, e ficam com vontade de tombar a inimiga. A Carmen, de Bizet, não tem o perigo da contravenção, mas tem o da sedução. Também na obra de Bizet há o sargento e há o toureiro.

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Na ópera, a música do toureador também é muito conhecida, mas a principal é a da Carmen, que é muito famosa. Vejam a letra original, em francês, e a tradução ao lado.

Habanera (Bizet)

L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser,
Et c’est bien en vain qu’on l’appelle,
S’il lui convient de refuser.
Rien n’y fait, menace ou prière,
L’un parle bien, l’autre se tait;
Et c’est l’autre que je préfère
Il n’a rien dit; mais il me plaît.

L’amour! L’amour! L’amour! L’amour!

L’amour est enfant de Bohême,
Il n’a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!
Si tu ne m’aime pas,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime!
Mais, si je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!

L’oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola;
L’amour est loin, tu peux l’attendre;
Tu ne l’attend plus, il est là!
Tout autour de toi vite, vite,
Il vient, s’en va, puis il revient!
Tu crois le tenir, il t’évite;
Tu crois l’éviter, il te tient!

L’amour, l’amour, l’amour, l’amour!

L’amour est enfant de Bohême,
Il n’a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!
Si tu ne m’aime pas,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime!
Mais, si je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!

O amor é um pássaro rebelde
Que ninguém pode aprisionar
E é em vão que nós o chamamos
Se para ele é conveniente recusar
Nada pode ser feito, ameaças ou orações
Um fala bem e o outro se cala
E é este outro que eu prefiro
Não me diz nada mas me agrada

O amor, o amor, o amor, o amor!

O amor é uma criança da Boêmia
Que nunca conheceu lei
Se você não me ama, eu te amo,
Se eu te amo, tome cuidado!
Se você não me ama,

Se você não me ama, eu te amo!
Mas se eu te amo,
Se eu te amo tome cuidado!

 

O pássaro que você achava ter surpreendido
Bate suas asas e voou
O amor está longe, você o pode esperar
Você não o espera e ele está aí
Ao seu redor, rápido, rápido
Ele vem, ele vai, depois volta
E quando você acha te pego, ele te evita
Você acha que ele evita e ele te pega

O amor, o amor, o amor, o amor!

O amor é uma criança da Boêmia
Que nunca conheceu lei
Se você não me ama, eu te amo
Se eu te amo, tome cuidado!
Se você não me ama,

Se você não me ama, eu te amo!
Mas se eu te amo,
Se eu te amo tome cuidado!

Essa letra define bem essa Carmen dos diabos, que endoidece os homens. Ressalto o trecho que a define: “Se você não me ama, eu te amo. Se eu te amo, tome cuidado!”

Não forcem a memória para se lembrarem da música, se já a conhecem, e não fiquem curiosos, caso ainda não a conheçam. Ouçam a música aqui e vejam Maria Callas, que não está interpretando a personagem, mas interpreta a canção divinamente.

Agora, se ficaram curiosos por entender como é essa música teatralizada em ópera, vejam uma apresentação do The Royal Opera e percebam o perigo da mulher-diaba.

E por último, vou falar da última Carmen, que é bem parecida com as outras. No filme Carmen (Prénom Carmen, Jean-Luc Godard, 1983), temos uma versão moderna dessa mulher perigosa para os homens. Na obra de Godard, Carmen faz parte de uma gangue terrorista e seduz um oficial de polícia que faz a segurança de um banco que ela e seus companheiros planejam roubar. A sedução dela é a destruição dele. Que perigo!  No filme há cenas de nudez e tudo.

Há alguns anos, tive o privilégio de assistir à essa ópera no Teatro Colón, em Buenos Aires (vejam o post com todos os detalhes aqui). Foi fantástico! Até hoje não me esqueço de uma fala da Carmen: “O amor não é para covardes”. É isso aí.

Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

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