Intertextualidades: Maiakovski, Caetano Veloso e Gal Costa

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Hoje vim falar de um poeta revolucionário, conhecido mesmo como “o poeta da Revolução”. Essa alcunha não é sem razão. Estamos falando de Vladimir Maiakovski (Baghdati, Império Russo, 1893 – Moscou, Rússia, 1930), que foi mais que um poeta e dramaturgo; ele foi também um ser politizado. Esse tipo de posicionamento era muito comum na Rússia do final do século XIX e do início do século XX, haja vista quem já leu Dostoiévski. 
Aos quinze anos Maiakovski ingressou no Partido Social-Democrático Operário Russo. Era um militante, foi preso e morreu cedo. Para ele, e vários outros contemporâneos, a revolução era muito mais do que uma questão política, era uma questão existencial. Mas a Revolução de Outubro não resultou muito bem no que ele almeja. As circunstâncias de sua morte são controvertidas: alguns dizem que ele foi perseguido politicamente; outros, que ele se suicidou com um tiro; outros, que ele se suicidou cortando os pulsos, após deixar escrita uma mensagem mais ou menos assim: “Não quero mais viver num mundo de mortos, prefiro morrer antes”. E eu prefiro essa última versão da morte dele. Além de ser mais dramática, combina com sua posição de considerar a revolução como uma condição da existência. Porque estou contando tudo isso? Porque esses dados são essenciais para entender a obra dele.
 
No livro A geração que esbanjou seus poetas, Roman Jakobson, linguista e grande amigo dele, afirma que Maiakovski se suicidou. De fato, o suicídio está sempre presente na poesia dele.
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Neste post, vamos ver um poema de Maiakovski que expressa bem sua visão de mundo.
 
O amor
Um dia, quem sabe,
Ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, 
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressuscitá-la
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravos de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada, 
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.
 
(Vladmir Maiakovski, 1923)
 
Não vou analisar a fundo o poema para não ficar muito cansativo, mas vou apresentar as informações gerais que nos interessam. Maiakovski era bem crédulo na ciência (não viveu o suficiente para passar pela desilusão do pós-modernismo). Ele acreditava que lá pelos anos 3000 a ciência estaria tão evoluída que conseguiria ressuscitar as pessoas. Ele pede para ser ressuscitado, pois é poeta e merece viver numa outra realidade, com uma vida mais plena. 
 
Caetano Veloso musicou o poema de Maiakovski com poucas alterações na letra. Vejam a comparação (à esquerda o poema, à direita a letra da música).
 
O amor
 
Um dia, quem sabe,
Ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, 
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressuscitá-la
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravos de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada, 
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra
O amor
 
Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra
 
 Querem ouvir como ficou a música? Vejam a interpretação de Gal Costa.
 
https://www.youtube.com/watch?v=cBxMFb8igus
 
Assim, temos uma aproximação da arte brasileira com o idealismo russo do início do século XX.
 
Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!
 

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