Intertextualidades: Walt Whitman, Abraham Lincoln, Thoreau e A sociedade dos poetas mortos

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Você pode até achar que não, mas eu sei que conhece Walt Whitman. Ele foi um americano do final do século XIX. Só isso? Não. Há muito mais. Ele tinha um olhar lindo… Confiram:

Walt Whitman Biography | Full Issue

Mas ele não ficou famoso por seu olhar. Sua fama veio por ter sido quem foi. Não é só isso também. Ele foi quem foi e expressou seu modo de ver o mundo por meio da poesia. Percebam que conhecem Walt Whitman:

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Talvez apenas lendo um trecho não seja o suficiente para reconhecê-lo. Serei mais direta. Esse poema ficou famoso com o filme A sociedade dos poetas mortos. Vejam a cena final do filme, em que, após a demissão do professor Keating, os alunos sobem em cima das carteiras e começam a recitar Whitman apesar dos gritos contrários do diretor do colégio. Aqui temos a demonstração de que o poema foi de fato apropriado.

http://www.youtube.com/watch?v=Ioe59gDSL_M

O poema incita a rebeldia? Talvez. Mas considerar apenas isso é reduzir Walt Whitman. 

Esse poema foi feito para ninguém menos que Abraham Lincoln logo depois de sua morte, em 1865. Pouco antes de sua morte, Lincoln teve sonhos perturbadores. Em um deles via pessoas correndo em direção à Casa Branca, onde viu estava seu próprio corpo esticado no chão e ouviu pessoas dizendo: “Lincoln está morto.”. Em outro sonho, às vésperas de seu assassinato, ele aparecia como o comandante de um navio no meio de uma tormenta e que se aproximava do porto de destino, mas tinha sensação que não concluiria a viagem. Foi premonitório.

Foi com base nesse último sonho que Whitman compôs esse lindo poema para Lincoln. Vejamos o original e a tradução completa do poema, de Katia Regiane Gonçalves dos Santos.

O Captain! My Captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather’d[1] every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring.

But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red!
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up! For you the flag is flung, for you the bugle trills:
For you bouquets and ribboned wreaths, for you the shores a-crowding[2].
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning.

O Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor’d[3] safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won!

Exult, O shores, and ring, O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Capitão! Meu Capitão!

O Capitão! Meu Capitão! Nossa temida viagem está acabada;
O navio superou toda sua dificuldade, a recompensa que nós buscávamos já foi alcançada;
O porto está perto, os sinos que eu ouço, o povo todo exultante,
Enquanto seguem os olhos um rumo seguro, o barco austero e desafiante.

Mas O coração! Coração! Coração!
Ó de vermelho derrama seu sangue!
Onde no deck meu capitão repousa,
Sucumbido inexpressivo e morto.

O Capitão! Meu Capitão! Levante-se e ouça os sinos;
Levante-se! Por você a bandeira está lançada, por você a trompa gorjeia:
Em seu nome buquês e formosas coroas, por você as praias estão se
glomerando:
Por você elas chamam, a influente multidão, suas faces ansiosas transformando-se.

O Capitão! Querido pai!
Este exército é indigno de sua liderança;
É algum sonho que está a bordo,
Você sucumbido inexpressivo e morto.

Meu Capitão não responde, seus lábios estão pálidos e calmos;
Meu pai não sente meu braço, ele não tem pulso nem vontade;
O navio está ancorado seguro e sonoro, seu caminho concluído e acabado;
Da temida viagem o navio vitorioso adentra com seu objetivo alcançado!

Alegrem-se Ó praias e toca Ó sinos!
Mas, eu ando aos prantos,
Segue o navio meu Capitão repousa,
Sucumbido inexpressivo e morto.

O capitão do poema é o Lincoln do sonho, o presidente da vida real. O clamor do eu lírico é em lamento pela impossibilidade de receber reconhecimento pelo esforço durante a  guerra civil entre o Norte e o Sul (1861-1865) e a abolição da escravidão.  Lincoln foi assassinado pelo ator e simpatizante confederado John Wilkes Booth, que ficou revoltado ao saber que o presidente pretendia conceder direito a voto aos negros.

A proximidade de porto do destino e a sensação que não concluiria a viagem, passagem do último sonho de Lincoln refere-se à Décima Terceira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, texto que abole oficialmente a escravidão no país e que está vigente até hoje. Após muitas negociações de Lincoln e diversas ratificações, o texto só foi definitivamente aprovado em 06 de dezembro de 1865. Lincoln foi assassinado em 15 de abril de 1865.

Após a morte de Lincoln e a composição do poema de Whitman, os dois se encontravam no palco enquanto este prestava homenagem àquele.

O que essa situação nos revela de Whitman? Além de ter sido um admirador de Lincoln, o poeta foi um dos precursores do modernismo nos EUA. Democrata inveterado e com espírito libertário, buscava a emancipação da literatura americana do padrão europeu. Ele foi para os americanos o que Mário de Andrade foi para o Brasil.

Mudando de poeta e continuando com o filme, temos mais um trecho de poema muito interessante que é apresentado em A sociedade dos poetas mortos

“Fui à floresta por que queria viver deliberadamente, queria viver profundamente e sugar toda a essência da vida. Deixar apodrecer tudo o que não é vida e não, quando eu morrer, descobrir que não vivi.”

Henry David Thoreau

Aqui temos mais um poema forte, que expressa bem o sentido de carpe diem (aproveite o dia), frase tão repetida no filme. Thoreau, escritor e poeta americano, é conhecido por sua defesa da vida simples, em contato com a natureza e, também, por sua defesa de uma desobediência civil e individual como um modo de oposição ao Estado injusto e autoritário.

Tanto no poema de Whitman quanto no de Thoreau percebemos uma força, uma incitação à vida. Também nos dois casos temos poetas com forte posicionamento político: um defendendo a democracia e a igualdade; outro, contra o autoritarismo e a injustiça do Estado. Ambos estão do mesmo lado, mas defendendo causas diferentes, mas em diálogo entre si. Simplificando, os dois poetas defendem a liberdade e se opõem à opressão institucionalizada.

No filme A sociedade dos poetas mortos também era essa a proposta do professor Keating, que ensinava seus alunos a se posicionarem a não aceitarem imposições castradoras.

Vejam a cena em que o professor Keating acha o livro com o poema de Thoreau transcrito.

Com tudo isso quero dizer que as citações de textos em filmes nunca são por acaso. Embora sendo bonitos, os textos não são meramente ilustrativos; eles têm uma função discursiva que nem sempre é muito evidente.

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