Análise: O caso da vara (Machado de Assis)

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Dessa vez, não farei uma resenha, mas uma análise de um conto: O caso da vara, de Machado de Assis (acessem o conto integral aqui). Por ser uma análise, darei spoiler, sim; caso contrário, não seria uma análise. É bom avisar isso logo no começo, né? Assim, quem não quiser saber o final, não lerá este post. Bem, vamos ao que interessa: a análise do conto.

O caso da vara, de Machado de Assis: a sutileza na construção das personagens

Em O caso da vara, as sutilezas das relações interpessoais permeiam e dão o tom da estória. Como em todas as outras obras de Machado, o enredo do conto é simples; os pequenos detalhes é que são importantes e reveladores. Aliás, em toda sua obra, Machado faz emergir a natureza humana, o caráter de cada personagem, por meio de fatos cotidianos, aparentemente comezinhos. 

Machado parece ter elaborado tipos psicológicos, uma tipologia de caracteres, dentre os quais parece escolher personas que são testadas em situações-limite, numa espécie de análise combinatória, ou de uma matriz, em que as bases são compostas pelo caráter dos personagens e pelos episódios que exigem uma tomada de decisão. O resultado dessas combinações sempre revela as razões egocêntricas que movem cada um, como se uma pessoa somente se constituísse nas interações, na relação com a outra pessoa.

Como em Dom Casmurro, nesse conto há a rejeição do seminário por parte de Damião, o protagonista, que tem interesse que seu pai seja convencido de que ele, Damião, não tem vocação para ser padre. Dessa forma, para atingir seu objetivo, se livrar definitivamente do seminário, Damião envolve três pessoas em sua trama, uma exercendo poder sobre a outra em benefício dele.

Ao fugir do seminário, em razão da impossibilidade de retornar à sua casa, onde estava o pai que o devolveria imediatamente ao seminário, Damião começa a “inventariar” mentalmente quem poderia acolhê-lo até o pai ser persuadido a aceitar sua desistência do seminário. Pensa em seu padrinho, João Carneiro, para dissuadir o pai da ideia de mantê-lo no seminário, mas como o padrinho é um “moleirão sem vontade, que por si só não faria cousa útil”, ele decide convencer uma amiga de seu padrinho, a viúva Sinhá Rita, a interceder em seu favor, persuadindo o padrinho a falar com o seu pai.

À primeira vista, o conto parece tratar da fuga de Damião do seminário e de suas articulações e manipulações para se safar da vida religiosa. Sua condição é caracterizada pelos adjetivos “espantado, medroso, fugitivo” e o leitor realmente torce para que ele seja ajudado. Assim, nessa primeira parte do conto, o protagonista parece ser a vítima de um destino traçado por razões alheias à sua vontade. No entanto, já nesse começo, Machado apresenta indícios de que Damião não é a vítima que parece.

Sendo João Carneiro compadre de seu pai, parece ser ele a pessoa mais adequada para uma aproximação física e amistosa do pai de Damião. Contudo, como o padrinho, movido por si só, não agiria em favor de Damião, rapidamente, o seminarista escolhe Sinhá Rita, uma “amiga querida” do padrinho; essa escolha se deu porque ele “tinha umas idéias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar”

Ainda assim, embora não pareça ser uma vítima “tão vitimizada”, o seminarista continua a ser o desvalido do conto. Até surgir Lucrécia. Nesse momento, o seminário passa a ser um fator secundário e entra em evidência outro episódio do qual o seminarista, embora esteja na cena principal, não pode ser considerado o herói da estória.

Ao aguardar que o padrinho fosse contatado para em seguida interceder em seu favor, Damião se mantém na casa de Sinhá Rita, onde conta anedotas, causando o riso da viúva e das crias dela, que faziam trabalhos de bordado. Entre as crias, há Lucrécia, com onze anos, que por rir das anedotas de Damião, o que acarretaria o atraso da tarefa, é ameaçada, com uma vara, por Sinhá Rita. Ao perceber a situação, Damião tem pena da negrinha e promete para si mesmo que, caso ela não terminasse a tarefa, ele a apadrinharia.

No entanto, na hora de recolher os trabalhos das crias, Sinhá Rita percebe que apenas Lucrécia não havia terminado sua tarefa. Furiosa, a viúva agride a negrinha, que foge para dentro, chorando e pedindo perdão. Sinhá Rita, irredutível, agarra a negrinha pela orelha e pede a vara a Damião. O seminarista fica indeciso por alguns instantes, escuta as súplicas que a negrinha lhe faz e lembra-se que tinha jurado a apadrinhá-la, já que foi por causa dele que ela atrasara o trabalho. Pressionado, tanto pelo pedido da viúva quanto pelas súplicas de Lucrécia, Damião entrega a vara a Sinhá Rita. E o conto termina.

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Nessa passagem, em que há a inserção da personagem Lucrécia, o conto parece tomar outra direção. Até então, Damião era o desvalido da narrativa. No entanto, a questão do seminário e o impasse sobre a cadeia de influências (Damião que convence Sinhá Rita, que convence João Carneiro, que deve tentar convencer o pai de Damião) se torna secundária. Os personagens principais passam a apresentar características que antes não apareciam, e as que já apareciam se tornam inexpressivas. Sinhá Rita, que se destacava pela vaidade, mostra-se implacável e cruel; Damião, o desprotegido que implorava a interferência de pessoas que tinham condições de ajudá-lo a se livrar do seminário, não consegue interferir em favor de quem implora sua ajuda e, em vez de ajudar, auxilia na punição. Neste último caso, ainda há uma agravante: Lucrécia seria punida, em parte, por culpa de Damião. Dessa forma, a recusa do seminarista em ajudar a negrinha transforma a vítima inicial do conto, Damião, em algoz.

Por intermédio desses episódios, já é possível perceber que nas relações propostas por Machado é tocante a falta de alteridade. É curioso que o outro, o “não-eu”, pareça pouco importar numa situação em que o “eu” se define na relação com o outro. Isso nos faz considerar que, para Machado, a distinção entre as pessoas está na relação de poder estabelecida entre elas. Nesse conto, as relações de poder são determinadas por fatores sócio-econômicos, sexuais e situacionais.

Na relação entre Sinhá Rita e Damião, a viúva se destaca pela vaidade, a qual, quando “alimentada” pelo seminarista, impulsiona-a a ajudá-lo. É notável a rapidez com que Damião conclui traços do caráter do padrinho e da viúva, usando um para influenciar o outro:

 “— Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda a ninguém… — Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não…”.

 O seminarista logo percebe que apelando à vaidade de Sinhá Rita, de forma sutil e dissimulada, ele alcançaria seu intento.

Entre Sinhá Rita e João Carneiro há uma relação de dominação sexual, em que a autoritária viúva exerce um poder sobre o padrinho, como é demonstrada na seguinte passagem: “Joãozinho, ou você salva o môço, ou nunca mais nos vemos.”.

Já entre Sinhá Rita e Lucrécia novamente é preponderante a dominação da viúva. No entanto, dessa vez, a relação de propriedade que os senhores mantêm com seus escravos determina a predominância de uma cultura escravocrata e patriarcal e estabelece contrastes entre etnias e classes sociais.

Entre Damião e Lucrécia é marcante o egoísmo do protagonista. Embora nessa situação também esteja em jogo uma relação de poder, não é uma cultura patriarcal ou escravocrata que move o seminarista, nem mesmo ele tem intenção de subjugar a menina. Ele, em sua condição de homem branco e bem colocado socialmente, só quer se dar bem.

A decisão tomada por Damião parece ainda mais egoísta quando é projetada a imagem da cena, pouco descrita por Machado, mas sutilmente insinuada por ele. De um lado há Sinhá Rita, viúva, branca e bem relacionada. De outro lado há Lucrecia, “uma negrinha magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda”. A cor da pele, a constituição física e as cicatrizes caracterizam a situação da cria: uma escrava subnutrida que frequentemente é punida. É no confronto das condições dessas duas personagens que Damião resolve ficar de seu próprio lado. 

Em termos de personalidade, os dois personagens-chave do conto são Damião e Sinhá Rita: a viúva tem personalidade mais forte, e o seminarista é mais perspicaz e manipulador. Porém, tanto um quanto o outro se define de maneira mais marcante na relação com Lucrécia. É a condição da pequena escrava que faz aflorar o traço mais impactante de cada um.

A relação de domínio apresentada por Sinhá Rita é determinada por fatores sócio-econômicos. Embora sua característica de subjugar o outro por meio de um exercício de poder – ou mais precisamente de um abuso de poder – a torne mais implacável, Sinhá Rita é um tipo previsível e manipulável.

Já Damião tem uma personalidade camaleônica que se mostra e se adapta de acordo com as exigências dos fatos. Esse caráter situacional do personagem o torna um sobrevivente em qualquer circunstância. Quando ele ainda era o desvalido do conto, mesmo que um desvalido situacional, Sinhá Rita o ajudou, atendendo a suas súplicas. Mas quando a desvalida é Lucrécia, escrava humilhada, socialmente desvalorizada e com marcas de castigo, Damião não a ajuda, sob o risco de perder a influência da viúva, mesmo diante das súplicas da escrava. Assim, para conseguir sua própria sobrevivência, as ações do seminarista são motivadas por razões egoístas, fazendo-o agir sempre no sentido de salvar a própria pele, custe o que custar a quem custar.

Se fosse o caso de concluir uma moral para a história, nesse conto Machado parece nos dizer que uma pessoa é muito mais do que aquilo que conhecemos dela, na relação que temos com ela. Outra coisa que ele parece nos mostrar é que no confronto entre a condição historicamente marginal do outro – que não é apenas um, mas toda uma coletividade que pena um atavismo de exclusão – vão valer as razões do indivíduo, tipo social moderno, em situação de alguma espécie de desconforto. Mesmo que seja apenas ocasional.

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

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