Resenha: As viagens de Gulliver (Jonathan Swift)

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Entre os livros que prometi ler neste ano e o Projeto de leitura: nazismo, antissemitismo e holocausto resolvi ler uma obra bem clássica:

As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

O enredo

Gulliver, um inglês navegador, uma espécie de Marcopolo, viaja a outras terras em busca de aventuras. Em suas viagens sempre ocorre algum imprevisto (naufrágio, sequestro…) que o conduz a terras estranhas. Nesses países, Gulliver entra em contato com povos totalmente diferentes de tudo que ele conhece, pois têm normas de conduta muito próprias, fisiologia distintas e, principalmente, políticas bem diferentes. Dentre os vários países exóticos em que eles aporta estão: Lilipute: os habitantes são pequenininhos, e Gulliver, gigante; Brobdingnag: os habitantes são gigantes, e Gulliver é minúsculo; Huyhnhmns: os habitantes são cavalos e os humanos são animalizados.

Em cada novo país, sempre ocorre os mesmos procedimentos: Gulliver aprende a se comunicar no idioma local, aprende sobre os costumes locais e conta sobre os costumes dos ingleses, causando estranhamento no interlocutor. Um detalhe que não podemos deixar de considerar é que em todos países em que aportou, Gulliver foi bem recebido. O pouco de desavença que houve em alguns desses países ocorreu após conhecê-lo um pouco melhor.

A narrativa

Narrado em primeira pessoa por Gulliver, o texto é composto por relatos de viagem. Mas não são diários de viagem ou diários de bordo, são relatos feitos após as viagens. Qual a diferença? A diferença é temporal. Quando se relata algo que se passou há algum tempo, contamos com uma memória não tão exata e tendemos a preencher as lacunas com nossas impressões posteriores ao fato, as quais podem ser influenciadas por acontecimentos que ocorreram após os fatos narrados. Quando os relatos são feitos em tempo quase sincrônico, não temos tempo de elaborar/elucubrar em relação ao passado, ocorrendo menos subjetividade na narração. Essa narrativa temporalmente distanciada afeta a confiabilidade dos relatos? Não. É uma ficção, creio que uma alegoria, o que significa que o autor preferiu criar um filtro para a recepção do texto. Contudo, o autor utiliza aquele velho recurso já conhecido de falar direto com o leitor, buscando proximidade, intimidade: 

“Antes de me referir à minha saída do império de Lilipute, parece-me talvez conveniente informar o leitor de uma intriga secreta que se teceu contra mim”.

“Não enfastiarei o leitor com os pormenores da minha recepção, que foi consoante à generosidade de tão grande príncipe, nem com os incômodos por que passei à míngua de uma casa ou de uma cama, sendo obrigado a dormir no chão embrulhado na minha manta.”. 

Outro detalhe: as associações que o texto nos permite não são diretas, assim, não são todos que captam as críticas presentes no texto. 

Minhas impressões e expressões

Há muitas edições desse livro que são adaptadas para crianças, mas esse não é um livro infantil. Muita gente não sabe disso. Creio que por ser muito metafórico e tratar de uma realidade temporalmente distante, a crítica torna-se menos explícita. Se lembrarmos que a Inglaterra do século XVIII era super imperialista, começamos a entender melhor a crítica: no contato com povos distintos, é necessário conhecê-los e respeitá-los. São diferentes, sim, mas também têm muito o que ensinar. As críticas do autor, apesar de indiretas, são mais específicas e aprofundadas que essa, que é genérica.

Gulliver é um Marco Polo às avessas: em vez de viajar pelo mundo e contar a seu soberano sobre as cidades e povos que conheceu, ele viaja o o mundo e conta aos soberanos das terras estranhas como é seu país. Aí é que vem a crítica, pois os soberanos sempre estranham e criticam a atuação da Inglaterra imperialista.

Esse texto me remeteu, ainda, à Utopia, de Thomas Morus (ou More), situação em que o autor cria um mundo idealizado como forma de criticar a realidade em que vivia. Naquela época era assim: a críticas às autoridades somente em forma de alegoria. Não estavam ainda na era dos direitos democráticos.

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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