Resenha: A divina comédia: inferno (Dante Alighieri)

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Uma de minhas empreitadas de 2015 é ler alguns clássicos dos clássicos, aqueles sobre os quais parece ter sido baseada boa parte da literatura ocidental. Ler livros dessa categoria exige muito de nós, pois a linguagem é mais difícil – muitas vezes com vocabulário arcaico -, o contexto histórico é distante e o formato pouco palatável. Todas essas características vemos n’A divina comédia, de Dante Alighieri.

Antes de começar a tratar do livro, pelas razões que citei no parágrafo acima, creio ser importante apresentar o contexto do autor e a estrutura da obra.

O autor

Não se sabe ao certo sobre a formação de Dante Alighieri (1265, Florença -1321, Ravena). Alguns acreditam que ele é autodidata, outros creem que ele teve instrução formal por um preceptor. Não importa muito como ele atingiu os resultados que conquistou, só é possível afirmar, lendo A divina comédia, que ele foi um homem de grande erudição. Nessa obra ele reuniu personagens políticos e mitológicos, autores clássicos, correntes filosóficas e religiosas, dentre outras coisas. 

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O autor também teve destaque político. Esse fator é importante para entender a obra. Dante participou da vida militar no combate contra os cavaleiros de Arezzo e defendeu Florença das investidas da França. Fez parte do Conselho da Comuna de Florença e fez parte dos seis priores (chefe de um grupo ou o superior de uma ordem religiosa ou militar) que governavam a cidade. Ao defender a cidade, ficou na mira do Papa Bonifácio VIII, que pretendia ocupar militarmente Florença. Em meio a tantas disputas políticas, foi vítima de calúnia e de traições, conjuntura que resultou em seu exílio em Ravena.

Nessa época, o comércio burguês começa a tomar conta dos limites feudais e Dante começou a perceber o acirramento de conflitos de interesses materiais, usura e ganância.

 Nesse contexto de ingerência política, crise de valores e costumes que Dante começou a escrever A divina comédia.

A obra

Dante esquematiza sua cosmogonia com erudição, racionalidade e moralismo. Ele organizou e classificou todo esse conhecimento em esquemas baseados no conhecimento astronômico e filosófico da época subordinados à moral cristã sob seu próprio ponto de vista. Essa última parte é importante, pois percebemos que muitas vezes Dante contraria às diretrizes da Igreja e estabelece seus próprios critérios de julgamento. A Igreja não mandaria um papa para o inferno, por exemplo.

Tudo é racionalmente organizado obedecendo à cosmologia de Aristóteles e Ptolomeu que foi ajustada pela Escolástica às Escrituras.  Nessa concepção,  resumidamente, a Terra é um globo fixo e imóvel no espaço, em volta do qual circulavam a lua, o sol e os planetas Júpiter, Marte, Vênus e Saturno. Nesse globo há um hemisfério superior de  superfície sólida e habitado; o hemisfério inferior tem superfície marinha e tem em seu centro a montanha do purgatório.

Do ponto de vista formal, a empreitada de Dante é elaborada em moldes de poema épico (como Odisseia, Eneida e outros), dividida em três livros (inferno, purgatório e paraíso), narrada em 100 cantos, com mais ou menos 140 versos cada um, escritos em tercetos de decassílabos rimados, alternados e encadeados (ABA BCB CDC e por aí vai). A edição da Editora 34 é bilíngue e percebam que as rimas foram mantidas em português.

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A edição da Editora 34 traz uma introdução que contextualiza o século XIII, explica o esquema da obra, no começo dos cantos, há um resumo do conteúdo e no final de um há notas que explicam personagens, mitos, figuras políticas etc. Enfim, é um edição que nos instrumenta à leitura, que não é muito fácil, pois imaginem o malabarismo sintático que o tradutor teve que fazer para manter as rimas de cada verso sem corromper o encadeamento e o ritmo.

Agora, vamos ao Inferno?

O enredo

No livro que trata do inferno, há 34 cantos com mais ou menos 140 versos cada um. Vejam a matriz que mescla a organização do inferno, as classes e as subclasses de pecados.

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Vamos resumir essa estória? 

No meio de sua vida (35 anos) Dante se vê perdido numa selva escura, perdido da “via da virtude”. Depois do sufoco, ele escapa da selva e encontra três feras que representam  três transgressões: onça, a incontinência; leão, a violência; loba, a fraude. Esses bichos o impedem de alcançar o monte iluminado pelo “Sol da Graça”. Até que aparece a alma de Virgílio, o famoso poeta e ídolo de Dante. Visando à salvação do poeta florentino, Virgílio propõe a Dante “um passeio”, mesmo que vivente, pelo inferno e pelo purgatório até a porta do paraíso (Canto I). Virgílio se torna o guia e mestre de Dante no caminho pelas profundezas do inferno (Canto II).

De canto a canto, os dois poetas percorrem os recônditos do inferno, reconhecendo amigos, inimigos, figuras mitológicas, autores clássicos e presenciando a punição aplicada de acordo com cada categoria de pecador. Percebam a racionalidade (ou obsessão) de Dante na catalogação e punição dos pecados: 

  • os ignavos, relaxados na escolha do bem,  são punidos com picadas de vespas e obrigados a correr sem parar atrás de uma insígnia (Canto III);
  • os tíbios  e frouxos são obrigados a carregar, ininterruptamente, uma bandeira (Canto III);
  • os luxuriosos (Canto V);
  • os gulosos são estendidos na lama sob chuva suja e espancados  pelo monstro Cérbero (Canto VI);
  • os avaros e os pródigos são divididos em dois grupos e empurram  pesos, fazendo, cada grupo, meia volta em sentidos opostos até se baterem e serem obrigados a retomar o caminho inverso (Canto VII);
  • os heréticos, são colocados em túmulos ardentes em chamas (Canto IX); 
  • os tiranos são mergulhados até os olhos em sangue fervente, os homicidas são mergulhados até a garganta e os salteadores são mergulhados até o peito (Canto XII);

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  • aos suicidas a punição é ter a alma caída  como semente na selva, ao crescer o arbusto, as folhas são alimentos para as harpias (Canto XIII);
  • os perdulários fogem de cadelas raivosas que dilaceram os que perdem o vigor na corrida (Canto XIII);
  • os blasfemos ficam deitados sob chuva de chispas de fogo; os usurários ficam sentados e os sodomitas ficam em contínuo caminhar (Canto XIV);
  • os usurários levam pendurara no pescoço uma bolsinha vazia decorada com o emblema de sua família (Canto XVII);
  • os rufiões e os sedutores são separados em duas filas e andam em sentido contrário (Canto XVIII);
  • os aduladores são submersos em esterco (Canto XVIII);
  • os simoníacos (que exerciam a magia) são enfiados de cabeça para baixo em estreitos buracos redondos com uma perna para fora (Canto XIX);
  • os adivinhos têm a cabeça torcida em relação ao corpo, o que os obriga a caminhar para trás (Canto XX);
  • os traficantes são atirados por diabinhos numa fervura (Canto XXI);
  • os hipócritas desfilam lentamente, vestidos de pesadas capas de chumbo (Canto XXIII);
  • os ladrões são atacados por serpentes (Canto XXV);

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  • os maus conselheiros estão em contínuo movimento e são presos em chamas  que os envolvem completamente (Canto XXVI);
  • os causadores de discórdias familiares e os iniciadores de cismas religiosos  são espíritos condenados  a percorrerem constantemente a vala e em cada volta são estraçalhados por um diabo armado de espada (Canto XXVIII);
  • os falsificadores têm o corpo todo recoberto de sarna e são incapazes de se movimentar (Canto XXIX);
  • os falsificadores de moeda têm como pena a hidropisia, que os impossibilita de se movimentar (Canto XXX)
  • os traidores são imersos em gelo com o rosto voltado para cima, fazendo com que a lágrima congele, impedindo a sequência do pranto (Canto XXXIII);
  • os traidores de seus benfeitores são mastigados por Lúcifer. Em cada uma de suas três bocas grandes há famosos traidores: Judas Iscariotes, Brutos e Cássio, (Canto XXXIV).

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Não é por acaso que há o adjetivo dantesco para designar assombroso, terrível, medonho, e também não foi por acaso que Rodin caprichou na escultura Porta do inferno baseada no inferno de Dante. Vejam a imagem.

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Não é minha pretensão fazer análise da obra, mas ainda há pontos que quero destacar.

No limbo do inferno estão os que não foram batizados, estes não são punidos, mas não podem ficar no mesmo local onde se encontram as almas virtuosas (aqui estão os grandes da antiguidade clássica, como Homero, Horácio, Ovídio, Lucano, Aristóteles, Platão, Sócrates, Demócrito, Tales, o próprio Virgílio etc., além de personagens clássicas e mitológicas, como Eléctra, Enéas, Heitor, César, Brutos,   dentre outros) (Canto IV). Assim, percebemos que Dante, ao mesmo tempo em que é eclético e erudito, elabora sua própria concepção, ou classificação, de correntes filosóficas que haviam sido acolhidas pela Igreja. Seu moralismo classificatório se voltou contra Aristóteles, de quem segue os preceitos morais e científicos, e não perdoou nem seu mestre, Virgílio.

Chamo a atenção para o papel de Virgílio nessa obra. Ele significa a Razão, condição da Virtude, na concepção aristotélica que foi adotada por Dante. Na prática, essa condição o coloca num status especial que o possibilita desbravar os caminhos e facilitar a trajetória de Dante, um vivente, no espaço dos mortos. Para isso, ele demanda  intervenção divina, e é atendido, solicita auxílio de diabetes, e é atendido. É como se Virgílio estivesse além do bem e do mal.

A figura de Dante personagem se divide entre a de um curioso e a de um político. Curioso pelas descobertas do caminho (pecadores e punições) e político pelos embates que travou com alguns desafetos que encontrou, mesmo sabendo que estes estavam mortos e recebiam punição, passionalmente Dante se armou de argumentação contra eles e até se divertiu com a punição física de alguns. Nem preciso dizer que os desafetos políticos de Dante estão no inferno, inclusive o papa um dos responsáveis por seu exílio, Bonifácio VIII, muito bem catalogado com seu pecado. Não devemos nos esquecer que o autor compôs a obra num contexto que considerava corrompido em termos religiosos, morais e políticos.

A narrativa

O poema é narrado em primeira pessoa pelo personagem Dante, uma figura ambígua que ao mesmo tempo se coloca como aprendiz e como moralizador.

O texto é um poema, mas, em razão de sua função moralizante, o narrador é bem presente, algo bem diferente do eu lírico com o qual estamos acostumados na contemporaneidade. Muitas vezes, ele fala diretamente ao leitor: “Pensa, leitor, no meu desanimar” (v.94, Canto VIII);  “desta Comédia, meu leitor, te Juro – ” (v. 128, Canto XVI);  “Leitor, um jogo ora ouvirás diverso:” (v. 118, Canto XXII). Esse recurso foi muito utilizado dentre os escritores do século XIX, como José de Alencar, Machado de Assis e Freud. Essa fala direta ao leitor busca uma intimidade, passo crucial para a proximidade de ideias. 

Minhas impressões e expressões

Ainda não desenvolvi a contento meu projeto de leitura sobre a era medieval, mas já andava desconfiando que, muito longe de ser um “período de trevas” como os iluministas sempre nos fizeram acreditar, a Idade Média foi um período de grande efervescência cultural, em que a cultura greco-romana exerceu grande influência, sobretudo ao Cristianismo. A divina comédia nos faz perceber que, ao mesmo tempo em que a Igreja exercia um poder de Estado e que a moral cristã classificava comportamentos e pensamentos, as diretrizes teórico-religiosas eram embasadas na cultura clássica. Uma contradição? Acho que não, afinal, era preciso partir de alguma coisa para criticar ou usar como exemplo (às vezes, esses dois posicionamentos, embora contraditórios, eram aplicados numa mesma categoria; é o caso do politeísmo tão criticado pelo cristianismo, mas ao mesmo templo aplicado, como na ideia de um santo para cada coisa). Assim, temos uma situação em que a concepção “científica” do mundo era fundamentada em Aristóteles; parte das concepções cristãs, em Platão.  

Podemos entender a obra de Dante como um resumo das concepções da Idade Média. Ele poderia ter feito um tratado, mas como era um poeta, fez um poema. É uma obra soberba!

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 Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

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