Resenha: A divina comédia: purgatório (Dante Alighieri)

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Continuando com o segundo livro d’A divina comédia, neste post vou tratar do purgatório. Mas antes dele, devo lembrá-los que em Buenos Aires há algo bem interessante para ver:

Palacio Barolo

Palacio Barolo

Esse edifício é dedicado a Divina Comédia de Dante Alighieri. O térreo representa o inferno; do piso 1 ao 14, o purgatório; do 15 ao 22, o paraíso. Os oito pisos do paraíso representam a quantidade de planetas que Dante conhecia até então, no século XIII e começo do XIV. Os 100 metros de altura do prédio representam os 100 cantos da Divina Comedia. O edifício totaliza 22 pisos, o mesmo número de estrofes dos versos da obra.

Voltando à obra, vamos ver o que o purgatório nos oferece?

O enredo

No purgatório estão aqueles que pecaram e se arrependeram tardiamente, por isso, devem esperar que São Pedro os conduzam aos círculos superiores. Não pensem que com a admissão de São Pedro tudo estará perdoado. Aqui também tem castigo, um pouco mais leves do que os do inferno, mas ainda assim a vida, ou melhor, a morte por aqui não é muito fácil. 

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Percebam na imagem acima que a organização do purgatório obedece à cosmologia de Aristóteles e Ptolomeu, que vimos no post anterior, onde o hemisfério sul (austral) é composto por água e não habitado. Assim, há o inferno, que fica nas profundezas da terra, o hemisfério austral, cheio de água e com a montanha do purgatório em seu centro, e o paraíso acima.

 Captei a imagem abaixo de uma HQ. Acho que está um pouco mais didática.

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Perceberam que depois da porta de São Pedro ou o portão do purgatório os sete círculos sobrepostos correspondem aos sete pecados capitais? Curiosamente, o guardião do portão do purgatório é o legista Catão, famoso na Antiguidade.

Vejam só que aqui um pouquinho do inferno continua:

  • os orgulhosos: carregam pesadíssimos blocos de pedra (Canto X);
  • os invejosos: ficam sentados contra a encosta sustendo-se uns aos outros, com as pálpebras costuradas com arame (Canto XIII);
  • os iracundos: um é transformado em rouxinol; outro é crucificado (Canto XVII);
  • os preguiçosos: correm de um lado para o outro para acudir necessitados (Canto XVIII);
  • os avaros e pródigos : ficam deitados de bruços no chão e com pés e mãos atados (Canto XIX);
  • os gulosos: têm a alma emagrecida (Canto XXV);
  • os luxuriosos: penitentes cantam e lançam exemplos de castidade (Canto XXV).

Ao percorrer pelos círculos, Dante continua encontrando conhecidos políticos, religiosos e artistas, cada um “classificado” no pecado e na punição estabelecidas por Dante. Muitos o interpelem suplicantes, mandando recado aos vivos ou explicando as circunstâncias da própria morte… Ô, angústia! Um detalhe interessante é que as orações dos vivos fazem as almas pecadoras evoluírem de estágio mais rapidamente. Outro aspecto interessante: o purgatório, além da punição, também tem um função pedagógica, já que a intenção é “recuperar” os pecadores. Assim, várias imagens como a da Anunciação são instrumentos de catequização.

Antes de sair do purgatório, Dante procura Virgílio, mas não o encontra mais. Seu mestre o abandonou, pois não poderá acompanhá-lo até o paraíso, pois está “classificado” no limbo do inferno, lembram-se? O lugar em que ficam os que não foram batizados. No lugar de Virgílio eis que surge Beatriz (falarei sobre ela no próximo post desta resenha), e Dante se derrete todo…

A narrativa

Dante continua com seu papel de autor-personagem que busca proximidade com o leitor como forma retórica de convencimento:

“Ó leitor, bem tu vês como eu exalto o tema meu, e a gora com mais arte não te admires se o levo ainda mais alto.” (p. 63).

“Leitor, se envolto em alpestre cimeira foste por névoa que a visão impeça” (p. 111).

Minhas impressões e expressões

O purgatório é interessante, mas o inferno é mais excitante, mais interessante. Para quem está de fora, é claro. Não me canso de ficar impressionada com a erudição de Dante e com seu sistema moral/classficatório. 

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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