Análise: Iniciação amorosa (Drummond)

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Como sei que não é todo mundo que gosta de poesia, principalmente por ter dificuldade em compreender vários recursos poéticos de construção de textos e outros que tais. Por isso, também tratarei de análise de poemas aqui. Vou iniciar com uma iniciação (hahaha). Bora lá!

Iniciação amorosa integra Alguma Poesia (1930), primeiro livro de Drummond, no qual são relacionados vários poemas com assuntos e imagens que se repetem. Outra característica evidente são os desassossegos pertinentes às vivências da juventude, revelando o universo de um jovem poeta.

Iniciação amorosa (Carlos Drummond de Andrade)       

A rede entre duas mangueiras                                                   

balançava no mundo profundo.           

O dia era quente, sem vento.           

O sol lá em cima,           

as folhas no meio,                                                          5           

o dia era quente.           

E como eu não tinha nada que fazer vivia                       

[namorando as pernas morenas da lavadeira.            

Um dia ela veio para a rede,           

se enroscou nos meus braços                                     10           

me deu um abraço,                                                                                

me deu as maminhas           

que eram só minhas.           

A rede virou,           

o mundo afundou.                                                         15            

Depois fui para a cama                                                                          

febre 40 graus febre.           

Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas,                       

[girava no espaço verde.                                                                                                   

Para quem não está habituado com poesia, devo explicar que: a numeração da esquerda é para marcar os versos (cada linha, um verso); cada conjunto de versos, uma estrofe; as letrinhas da direita são para marcar as rimas (letrinha iguais, rimas iguais). Também devo avisá-los que evito ao máximo utilizar termos técnicos em minhas análises de poema para não dificultar o entendimento da interpretação. Esclarecimentos feitos, vamos à análise.   

A configuração de um delírio

Na primeira estrofe é construída uma imagem estática, formando um quadro em que os elementos se mantêm em equilíbrio: dia quente, sem vento, ensolarado, uma rede na sombra de duas mangueiras. O sexto verso repete uma frase do terceiro (“O dia era quente”), fixando a informação sobre o excesso de calor. Nessa estrofe, há poucos verbos e o único que exprime uma ação, um deslocamento, é o “balançar”, remetendo a um movimento oscilatório, um embalo. O eco de “mundo profundo” emprega uma tonalidade de onda sonora que altera a frequência e a dimensão.

O surgimento de um ritmo mais prolongado e o estendimento do último verso formam um contexto propício ao aparecimento do eu poético, que surge praticando uma ação habitual (“vivia namorando”) e numa posição providencial: deitado na rede, posição em que as pernas da lavadeira ficavam à altura dos olhos. É a conjuntura desse quadro que leva o eu poético – já tão afetado pelo calor, pelo embalo da rede, pela falta de ter o que fazer, e embriagado pelas pernas da lavadeira – a construir fantasias.

Na segunda estrofe, a indeterminação temporal (“um dia”) assinala que este período é diferente do que foi indicado na primeira estrofe, em que o tempo está bem determinado (“o dia”). Também ao contrário da primeira estrofe, em que os verbos denotam pouca ação, na segunda, os verbos indicam movimento (“vir”, “enroscar”, “dar”, “virar”, “afundar”). Assim como na primeira estrofe, o ritmo é marcado, no entanto, na segunda, há uma regularidade entre a alternância desses ritmos (versos 11 a 15).

A ocorrência de versos com rima se dá apenas na segunda estrofe:

10         se enroscou nos meus braços             a                                                          

11         me deu um abraço,                                a                                                                      

12         me deu as maminhas                           b                       

13         que eram só minhas.                            b                       

14         A rede virou,                                          c

15         o mundo afundou.                                c

Tanto em aa quanto em bb as rimas são formadas por palavras que parecem sair uma da outra (braços, abraço; maminhas, minhas), formando um encadeamento fonético, que transmite a noção de imbricação das ações. As rimas cc, formadas por flexões verbais, são as que mais expressam ação na estrofe, encerrando uma situação.

Nessa estrofe há uma nova ocorrência do mesmo tipo de eco que acontece na primeira. No segundo verso o “mundo profundo” parece transportar o eu poético para uma outra freqüência, com um fundo distante da superfície circundante; no verso 15, o mundo afundou, parecendo trazer o eu poético da dimensão projetada. Segundo o dicionário Houaiss, profundo quer dizer “que vem do fundo” e afundar é o mesmo que “ir ou fazer ir ao fundo”. Embora essas palavras tenham sido utilizadas em sentido denotativo, no contexto do poema profundo pode ter o sentido de ir ao fundo, de conduzir o eu poético a um estado de sonolência; afundar, no poema, pode significar “vir do fundo”, do mundo imaginado para o mundo real. Essa alteração de sentido das palavras pode ser entendida como uma metáfora para a alteração de sentido do eu poético: ele imergiu no mundo da fantasia e veio do fundo dos devaneios quando a rede virou, malogrando a fantasia e fazendo o mundo imaginado fracassar.

Ocorrem nos mesmos versos: regularidade de ritmo, rima emparelhada e uso de verbos que indicam ação. Essa combinação emprega fluidez na estrofe, rompe a imagem estática construída na primeira e conduz ao quadro de devaneio patológico da última estrofe.

Na última estrofe, ocorre no penúltimo verso do poema: omissão de vírgula e de preposição, repetição da palavra “febre” e marcação do ritmo. Essa conjuntura constrói a imagem de um eu poético morbidamente delirante.            

No último verso da primeira estrofe, a lavadeira é uma figura precisa, determinada e com pernas morenas. Assim como ocorreu com o marco temporal da segunda estrofe, na terceira surge outra indeterminação: a lavadeira da primeira estrofe transformou-se em “uma lavadeira”, que não mais se faz presente pelas pernas e sim pelas tetas, que já não são maminhas como eram na segunda estrofe.

Diferentemente do penúltimo verso, o último, apesar de alongado, é bem pontuado, facilitando a descrição da imagem. O fato de ser indeterminada (“uma lavadeira”), imensa, com tetas imensas e de girar no espaço, transforma a lavadeira numa figura onírica, indefinida, flutuante. Nesse delírio, a imagem formada na primeira estrofe por “duas mangueiras” e “as folhas no meio” mistura-se, formando o espaço verde mencionado no último verso.

O poema é composto por estrofes com relação causal que se imbricam: na primeira estrofe a combinação entre calor, letargia e desejo; na segunda, o resultado dessa combinação: devaneios eróticos; na terceira, o resultado da combinação entre exposição ao sol e devaneios eróticos: um delírio patológico.

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