Resenha: Mulher aonde vais? Convém?

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De Maria Alice Schuch, Mulher, aonde vais? Convém? é um livro voltado para mulher de meia-idade, casada e com filhos já crescidos, ou seja, com parte de seus principais papéis sociais já comprida. No entanto, qualquer mulher, independentemente da idade, pode se identificar com livro, num passagem ou noutra. Com cunho inicial meio autobiográfico, o livro é um raio X da alma feminina.

O enredo

Repleto de metáforas e com várias imagens de arte que remetem desde a Antiguidade Clássica até a arte moderna, o livro discorre sobre a condição feminina; contudo, não é a condição imposta pela sociedade, mas a imposta pela própria mulher, que não é vista como vítima, mas como algoz de si mesma. São simuladas várias passagens, comuns na vida feminina, em que a mulher é apresentada como insegura, controladora, invejosa, ciumenta, dentre outros sentimentos negativos.

“Verdadeiramente, o grande jogo é sempre fixado no ‘ter’, na posse: aquela que possui ou controla o homem é a que tem mais. Se, por acaso, surge uma mulher séria, honesta e eficiente, coloca-se um defeito, faz-se qualquer insinuação para envenenar a possível forte concorrente e fazer com que o homem permaneça sempre no giro, dependente.”, p. 63-64.

Ao mesmo tempo em que é uma crítica à condição que a própria mulher se impinge, a obra também é um chacoalhão, que insta à reação.

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A narrativa

A narradora é cruel, implacável, narra em terceira pessoa para manter um distanciamento e manter o tom profético, mas se redime, de tempos em tempos, utilizando a terceira pessoa do plural, o “nós”, incluindo-se dentre os alvos.

“[…] a mulher ama e cultiva o problema, assim também como sua causa. Tantas vezes defendemos aquilo que impede o nosso desenvolvimento, como um relacionamento pouco funcional ou um filho já crescido, que insistimos em proteger, servir, substituir. Por ter medo da nossa própria força, por não sabermos o que fazer com ela, dedicamo-nos a dar, ajudar, substituir e, desse modo, anulamo-nos. Ao invés de ensinar as tochas a brilhar, insistimos em apagá-las”. p. 71. 

A autora parece esmiuçar a alma feminina e evidenciar sentimentos mais subterrâneos e indignos de orgulho.

“A mãe de boa-fé, muitas vezes, por causa de sua própria infantilidade, continua a agir de modo a fazer com que os filhos tornem-se eternos parceiros dependentes, prende-os a si, protege-os, não permitindo o seu desenvolvimento. Incapazes de vivenciar seu próprio projeto, muitas mães impedem os filhos de fazê-lo e, ao substituí-los e protegê-los, anulam também o deles” p. 59.

Minhas impressões e expressões

Confesso que a princípio esse tipo de narrativa me incomodou, pois pareceu-me que a autora estava generalizando demais. Mas depois percebi que essa forma de narrar impõe um distanciamento providencial à narrativa; já que, sem ele, o “chacoalhão” pretendido com a narrativa não teria muito efeito.

Fui no lançamento do livro e foi um grande prazer conhecer a autora, uma figura já na terceira idade e cheia de vida, de humor e de entusiamo. Penso que tudo isso tem a ver com os chacoalhões que vida lhe deu e a fez ver o mundo de uma outra forma. O livro, de forma metafórica, descreve esse processo. Não parece-me que o livro seja uma receita ou de auto-ajuda, mas sim o compartilhamento de uma experiência que tem como objetivo incentivar outras pessoas. Vejam meu exemplar autografado:

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!