Resenha: O Ateneu (Raul Pompéia)


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Mais uma obra nacional. Estou adorando ler, conhecer um pouco mais de nossa literatura. Se você estiver com preguiça de ler tudo que escrevi, assista ao vídeo no final do post. Com vocês:

O Ateneu, de Raul Pompéia

O enredo

Rio de Janeiro, 1888, período imperial. Sérgio, um garoto de 11 anos é levado por seu pai ao internato Ateneu, onde iria passar os dois próximos anos de sua vida. O Ateneu é um conceituado internato para meninos oriundos de família abastada, mas que também permite o ingresso de alunos pobres a título de caridade, o que hoje em dia chamaríamos de “política social”. O diretor do colégio é Aristarco, um rígido pedagogo com métodos educativos nada pedagógicos, como a humilhação pública.

No Ateneu, Sérgio passou por várias etapas, em cada uma delas ele tinha um amigo que era mais próximo, ora Sanches, ora Bento Alves, ora Franco,ora Egbert… Cada um desses alunos o faz entrar em contato com uma realidade diferente e sua fama no colégio vai mudando de acordo com o amigo da vez, fazendo-nos lembrar do ditado “Diga-me com quem andas que te direi quem és”. Com isso, Sérgio tem sua fase de mau aluno, de bom aluno, de encrenqueiro, e também o faz se aproximar da religião e depois rejeitá-la, com a influência de Barreto. Em diversos episódios, Sérgio se mete em muitas confusões, se frustra, se decepciona… e assim vai se formando.

Todos esses fatos são permeados pela austeridade de Aristarco, dos professores e funcionários, que adotavam a agressão física como método disciplinar. Contudo, esse excesso de rigor é bem arbitrário, já que é aplicado por Aristarco conforme o convém, considerando a posição econômica do aluno. Além disso, muitos fatos ocorrem no interior do internato sem que os que estão do lado de fora nem desconfiem, como casos de homossexualismo e assassinato.

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A narrativa

O relato é feito em primeira pessoa pelo protagonista, Sergio, já em fase adulta, de maneira não linear. Essa condição nos remete ao que eu sempre trato neste blog: temos que desconfiar de narrativa feita com distanciamento temporal, pois ela lança mão das impressões atuais sobre fatos passados e às vezes nos faz acreditar que as impressões são do passado. Confuso? Acho que não. O que pensamos hoje não é a mesma coisa que pensamos ontem porque de ontem para hoje aconteceram muitas coisas que nos transformaram e nos fizeram pensar diferente. Resumindo, em narrativas assim pode haver anacronismo: olhar com os olhos de hoje algo do passado, sendo que no passado não teríamos condições de pensar como pensamos hoje.

Nessa obra, essa característica compromete? Acho que não, ao menos, não tira a força do que o autor procurou retratar. Não posso deixar de exaltar excelente escrita: 

“A Melica, a altiva e requebrada Amália, lambisgóia, proporções de vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de princesa. Dois grandes olhos pretos, exagero dos olhos pretos da mãe, tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um belo I com dois pingos. Por estes olhos e por sobre os ombros, que tinha erguidos e mefistofélicos, derramavam-se desdéns sobre tudo e sobre todos. Possuía e pestiscava a certeza fácil de que o Ateneu em peso andava caído por ela, e morava no andor imaginário daquela idolatria de trezentos.[…]”.

É um tipo de texto que nos dá prazer ler, nos deleitamos com as construções bem feitas.

Minhas impressões e expressões

Essa obra revela a hipocrisia dos renomados colégios do período imperial, que representa a hipocrisia da sociedade como um todo: vive-se de fachada, procurando ostentar ao mesmo tempo em que as coisas não tão bonitas são jogadas para debaixo do tapete.

É um texto que trata de uma ruptura, de um quase abandono,: Sérgio é apartado da família e inserido num ambiente hostil, no qual tem que sobreviver a duras penas. É quase um romance de formação na idade escolar, ao mesmo tempo em que também denota uma busca de identidade.

Não posso deixar de falar que o texto também é determinista, preconceituoso, percebam:

“Ângela tinha cerca de vinte anos; parecia mais velha pelo desenvolvimento de proporções. Grande, carnuda, sanguínea e fogosa, era um desses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente para esposa da multidão […]”.

Mas essa característica era comum, era a mentalidade vigente na época, conforme já vimos em O cortiço, de Aluísio Azevedo e Os sertões, de Euclides da Cunha. 

 Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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