Resenha: O búfalo (Clarice Lispector)

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Neste post vou tratar de um conto imperdível de Clarice Lispector: O búfalo. Não há como não se apaixonar por essa história. É um conto que também é uma poesia em prosa, não apenas pela beleza da história, mas por características literárias comuns em poemas, como repetição, frequência, ritmo e figuras de linguagem. Vejam o conto integral aqui

O enredo

Uma mulher, que sofreu uma decepção amorosa vai ao jardim zoológico em busca de uma animalidade que a encorajasse a fazer o que está com o propósito de executar. Em sua busca frenética, ela entra em contato com a natureza dos bichos e de si mesma.

A narrativa

Parte da grandiosidade desse conto está nas escolhas narrativas que Clarice fez. O contraste entre os sentimentos da mulher e a natureza dos animais são relatados de maneira diferente, mas ambas poéticas. Os bichos são apresentados com excepcional embelezamento, vejam?

  • “Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa”.
  • “O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda”.
  • “A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu.”
  • “O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entre ao processo de conhecer a comida”.

A apresentação da mulher é feita de duas formas narrativas, primeira pessoa e terceira pessoa, mesclando fluxo de consciência, o que faz com que a angústia seja compartilhada com o leitor.

  • “‘Oh não, não isso’, pensou. E enquanto fugia, disse: ‘Deus, me ensine somente a odiar”.”
  • “O ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo!”.

Percebam que os animais são representados com humanidade e a mulher com animalidade. Incrível!

Outro ponto a destacar é a frequência e o ritmo do texto. Se você ler o trecho abaixo, perceberá o movimento da língua ao ler a passagem, o que imprime uma sensualidade. Saibam que os leões se acasalam apenas uma vez por ano. É puro amor e poesia.

 “Até o leão lambeu a testa glabra da leoa.”

Gostaria de falar mais sobre a construção do texto, mas não posso ir além sem revelar (mais do que já revelei) detalhes do texto. Sei que essa resenha é quase uma análise, mas não poderia tratar desse conto sem me referir a essas características.

Minhas impressões e expressões

É um texto belíssimo! É altamente imagético, com ritmo e frequência super encadeada, enfim, pura poesia. Um dos meus contos favoritos, não me canso de relê-lo.

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Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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