Resenha: O fio da navalha (W. Somerset Maugham)

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O fio da navalha (1944), de William Somerset Maugham, é uma obra semi autobiográfica que, de modo sutil e simples, aborda os acontecimentos do período entre guerras (1919-1939). Gosto muito dessa história, pois nos faz refletir sobre vários aspectos da vida.

O enredo

O livro apresenta a estória de Larry, um piloto da Primeira Guerra que, ao retornar aos Estados Unidos, decide drásticas mudanças em sua vida: recusa de  emprego promissor, rompimento do noivado e viagem pelo mundo a procura de sabedoria e fé que vão além da natureza finita do homem. Possui fé em um Deus que nem sabe se existe e custa-lhe acreditar que a dura realidade seja permitida por um ser conhecido como “Todo Poderoso”. Por não combinarem com sua própria ideia de Deus, essas inquietações o deixa voraz por nova explicação sobre o mundo. Em sua busca pelo significado da vida e sua sede por conhecimento, Larry percorre três continentes e vivencia várias situações oriundas da guerra. Paro por aqui, mais do que isso seria dar spoiler.

Minhas impressões e expressões

Além do interessante enredo, a obra mostra boa representação da época, na qual são sinalizados importantes fatos históricos em contrapartida à lenta transição de mentalidade. São abordados os principais acontecimentos do início do século XX e do período entre guerras: queda da bolsa de Nova Iorque, mineração do início do século, ascensão econômica dos Estados Unidos, revolução industrial, surgimento da arte expressionista, influência das descobertas de Freud e Darwin, guerra civil espanhola, fascismo e nazismo, doutrinas filosóficas ateístas… Por serem pouco complexos, os personagens representam bem um papel social. É possível distinguir um hipócrita burguês, uma indelével capitalista, um novo rico americano, uma feminista liberal, uma representante da “geração-perdida”  e Larry, a grande metáfora da obra que tem como função equilibrar toda situação através de sua abstinência aos prazeres tão incensados por todos e sua valorização do ser humano por meio da serenidade e paz interior que conseguiu obter por influência de filosofia oriental.

Por meio da continência de Larry, Maugham critica os valores sociais da época, tanto os da burguesia quanto os dos aristocratas. Os primeiros são criticados pelo excessivo valor que atribuem ao trabalho e aos bens materiais; os segundos, pela hipocrisia e pela falta de consciência social, porque mesmo após uma guerra continuam a viver o clima de La Belle Èpoque.

Se lido de modo descompromissado, o livro talvez não prenda tanto a atenção. Devido à sutileza, muitos dos aspectos citados podem passar despercebidos. Mas o charme da obra é esse: fidelidade histórica por meio de primorosa delicadeza.

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Viagem na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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