Resenha: O queijo e os vermes (Carlo Ginzburg)

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Creio que livros de não ficção, para serem mais palatáveis, necessitam de uma contextualização histórica ou sobre o autor, ou ambos. Nesse caso, falarei um pouco sobre o autor.

Carlo Ginzburg (1939-) é um historiador italiano, precursor da micro-história. O que é isso? É a história de pessoas comuns, sem grandes feitos, gente que normalmente  passa incólume pela vida. Ele é especialista em mitos, religião, crenças e outros que tais. Dentre seus livros mais famosos são Mitos, emblemas e sinais, Olhos de madeira, Os queijos e os vermes e Relações de força. No caso do livro tratado neste post, o autor teve interesse em analisar de perto um processo de inquisição que encontrou num arquivo em que fazia pesquisa. Acho que já é o suficiente para começarmos. Vamos ao…

Os queijos e os vermes

O enredo

Durante o século XVI, um moleiro, Menocchio, foi acusado pela Inquisição italiano por heresia. As acusações giram em torno de suas afirmações sobre a Virgem Maria, Cristo e a concepção do universo. A história gira em torno do processo de inquisição de Menocchio.

A narrativa

Acho que a forma narrativa foi do que mais gostei neste livro. É ela que torna o livro interessante e instigante, pois além de extrair trechos dos diálogos do processo, Ginzburg faz vários questionamentos visando entender melhor o contexto histórico do processo. Assim, ele interrompe as transcrições do processo para responder as perguntas que faz ao texto ao mesmo tempo em que apresenta a probabilidade histórica de ser verdade ou não o que Menocchio afirma ou nega.  

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São buscadas as fontes de influência de Menocchio, pois, em pleno século XVI afirmar que era impossível a Virgem Maria ser virgem e que Jesus era um homem como outro qualquer não era comum na época. 

Minhas impressões e expressões

Não escondo de ninguém que sou louca por história e por literatura, logo, a possibilidade de entender melhor alguns contextos realmente me fascina. Principalmente se for uma situação como essa, em que a história de uma pessoa comum para a época e relatada com tanto interesse. É a micro-história de Ginzburg. Não é raro encontrarmos textos sobre a inquisição, mas sobre uma micro-história na época da inquisição é, sim.

Também é muito interessante a cosmogonia de Menocchio, uma pessoa que em pleno século XVI sabia ler e escrever, o que o possibilitou duvidar das Escrituras e desenvolver concepções próprias. Interessantíssimo!

Sabem o que é mais curioso nessa história? Menocchio é religioso, ele apenas não concorda com a história oficial.

Ah… Se alguém ficou curioso sobre o título (eu tinha ficado!), aí vai a origem dele: na cosmogonia de Menocchio os homens são vermes que saem do queijo.

Se alguém ficou curioso sobre as penas/castigos/punições da inquisição, leia o fabuloso conto de Edgar Allan Poe, O poço e o pêndulo (ver resenha aqui).

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 Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!