Resenha: Os miseráveis (Victor Hugo)

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Foram 1.650 páginas em francês. Ufa! Demorei, mas finalmente consegui concluir a leitura de…

Os miseráveis, de Victor Hugo

O enredo

França, início do século XIX, período em que recém-Revolução Francesa, época de guerras napoleônicas, restabelecimento da monarquia e de guerra civil; uma época em que a população se dividia entre monarquistas e republicanos.

A melhor maneira de tratar do enredo dessa história sem dar spoiler é falar um pouco dos personagens principais.

Jean Valjean – por roubar um pão para alimentar cinco sobrinhos pequenos, é preso e condenado ao trabalho forçado. Suas tentativas de fuga fizeram sua pena aumentar, totalizando 19 de prisão. Ao ser libertado, tem que lidar com a rejeição da sociedade por ser um ex-condenado; todas as portas se fecham para ele, exceto a do bispo de Digne, um homem cuja generosidade transcende seu ser. Ainda sob efeito de sua antiga condição, Jean Valjean comete dois pequenos furtos antes de a bondade do bispo tocar seu coração e o transformar em um novo homem. No entanto, esses dois pequenos crimes pendem sobre ele perante a justiça.

Fantine – uma linda e ingênua moça tem uma filha com seu namorado, mas é abandonada por ele, que a deixa totalmente sem recursos. A luta pela sobrevivência faz com que Fantine deixe sua filha de 2 anos aos cuidados de um casal de alberguistas. Enquanto trabalha para sustento de si e da filha numa cidade próxima, o casal explora Fantine pedindo sempre mais dinheiro. Ao descobrirem a existência de sua filha, Fantine perde o emprego e vai descendo cada vez mais a trabalhos mais humilhantes e torpes para atender às altas exigências financeiras do casal de alberguistas.

Cosette – filha de Fantine é maltratada por seus cuidadores, que a mantêm sob exploração e como fonte de renda. Mantém-se nessa situação até os 8 anos, quando acontece uma grande mudança em sua vida.

Thenandiers – família de trambiqueiros que sobrevivem por meio de golpes e explorações. O casal é extremamente maldoso e ganancioso, capaz de atrocidades sem limites.

Marius Pontmercy – jovem oriundo de uma família tradicional que, ao saber detalhes de seu passado, resolve mudar de vida e viver por conta própria, ou seja, na penúria.

Gavroche – um pequeno com alma de revolucionário, vive nas ruas, mas a miséria não o fez mesquinho, ao contrário, ajuda quem está em piores condições que ele.

Javert – inspetor de polícia extremamente rigoroso e implacável.

Todos esses personagens experienciam a miséria. A maior parte deles sente na pela a miséria material, resultante das precárias condições sociais. Outros, como Javert, tem como experiência a miséria emocional. Entre uma miséria e outra, esses personagens se encontram e desencontram, se amam, se odeiam… um fazendo parte da história do outro.

Não posso falar mais, sem dar spoiler. Falei muito tentando não dizer quase nada. Vamos ao que mais é envolvente nesse livro…

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A narrativa

O narrador dessa história é do tipo onisciente, onipresente, todo-poderoso, parcial, politizado, crítico, enxerido e “causador”. É daquele tipo que não deixa o personagem falar por si só e conduz, ou manipula, o leitor. O narrador é tão intrometido que podemos confundir sua opinião com a opinião da personagem, pois às vezes temos a sensação que estamos diante de um fluxo de consciência.

No século XIX era muito comum o narrador falar diretamente como o leitor, envolvendo e buscando proximidade. Machado de Assis, José de Alencar, Balzac, Freud… e vários outros escreviam assim. Porém, numa vi nenhum narrador tão abusado quanto esse.

Percebam que ele faz do leitor o que quer :

  … é manipulador,

 “Aqui fica reservada qualquer teria pessoal; somos apenas narradores; falamos segundo o modo de ver de Jean Valjean; traduzimos suas expressões.”

“O autor deste livro teve entre as mãos, em 1848, o relatório especial feito sobre esse assunto ao prefeito de polícia de 1832.”

… é filósofo,

“Quando estamos no fim da vida, morrer quer dizer partir; quanto estamos no começo da vida, partir quer dizer morrer.” 

….troca os papéis de autor e narrador,

“Quando tinha 34 anos, o narrador desta grave e sombria história lançava uma obra escrita com o mesmo objetivo que esta, um ladrão falando gíria, houve espanto e clamor.” [O autor refere-se à sua outra obra O último dia de um condenado].

Além de demonstrar grande conhecimento histórico e político, esbanjando erudição, fazendo comparações com o cânone… enfim, os exemplos são infinitos. Estão me faltando palavras para explicar esse narrador. Vocês terão que ler a obra, desde que seja uma boa tradução, para entender melhor o que estou tentando explicar.

Minhas impressões e expressões

Li em algum lugar que esse romance é uma epopeia moderna. Eu concordo. Fiquei impressionada com a habilidade narrativa de Victor Hugo. Ele traça a trajetória de um herói (Jean Valjean), que tem características: dos heróis gregos (coragem e força hercúlea); dos heróis medievais (fé); dos heróis modernos (desvalido, vítima de uma condição social cruel, mas protagonista de sua própria vida).

É um romance s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l! Mexe com todas suas emoções: você ri, chora, fica tenso, fica apreensivo… e continua lendo.

A única coisa que não achei tão legal é que o autor exagerou um pouco na parte histórica e descritiva. Dispensou 50 páginas apenas para falar sobre a batalha de Waterloo, várias outras páginas para explicar os esgotos de Paris. Essas partes são repletas de dados (nomes, datas, dados históricos) e cansam um pouco. Acho que ele faz isso para quebrar o ritmo da narrativa, deixar o leitor em banho-maria para depois retomar aos fatos que nos deixam apreensivos. Sacanagem!

Por mais que a história de cada personagem seja extremamente envolvente, o que mantém o leitor firme na empreitada de ler uma obra gigantesca como essa é o narrador, ou melhor, a grande capacidade narrativa de Victor Hugo. Não é à toa que os franceses o adoram. Contudo não é só por ser um grande escritor que Victor Hugo tem tanto prestígio dentre os franceses, mas também por seu romance ser politizado, com forte crítica social. Para demonstrar que não estou exagerando, vejam que a casa dele é aberta à visitação em Paris. Eu fui lá.

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Mais do que isso, o túmulo dele está no Panteão, lugar para poucos, um mausoléu erguido em homenagem “aos grandes homens da era da libertação francesa”…

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 … e há uma estátua de cera dele no Museu Grévin.

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Não pensem que essas homenagens ou privilégios são concedidas a todos os famosos franceses. Não vi nada que se referisse a autores como Proust, por exemplo, durante o período que passei por lá. Porém entendo o apreço por Victor Hugo, porque só sei de uma coisa: tô com dificuldade de viver num mundo sem Jean Valjean.

Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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