Resenha: Os sertões (Euclides da Cunha)

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Venho tratar de um clássico da literatura brasileira, um daqueles livros que ouvimos falar desde o Ensino Médio, senão antes. Antes de falar um pouco da obra, acho que tenho que apresentar um resumo do contexto histórico. Porém, se você tiver preguiça de ler tudo que escrevi sobre a obra, assista ao vídeo no final do post.

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Brasil, final do século XIX, período da República do marechal Floriano Peixoto. Como correspondente do jornal O Estado de São Paulo, Euclides da Cunha, em 1897, rumou para Bahia, onde estava ocorrendo a Guerra de Canudos (1896-1897), um movimento popular liderado por Antonio Conselheiro, na Bahia. Canudos era uma região de latifúndios, de seca e de abandono político; para lá rumaram sertanejos e ex-escravos que acreditavam na salvação religiosa, incitada por Conselheiro, de sua própria miséria. E Canudos foi ficando bem povoada.

Tomados pelo medo das proporções que as crenças podem resultar, os latifundiários se uniram à Igreja, que também não estava satisfeita com as orientações religiosas pregadas por Conselheiro, e fizeram lobby junto ao recém instaurado governo republicano de Floriano Peixoto. As três primeiras expedições de militares enviadas a Canudos foram derrotadas, o que fez o medo e a violência dos opositores crescerem. A partir de então, a ordem foi exterminar tudo e todos em Canudos, numa matança que computou em torno de 20 mil sertanejos e cinco mil militares mortos. A cidade/povoado foi inteiramente destruída por meio de incêndio, e os prisioneiros de guerra foram cruelmente degolados.

Isso tudo não é spoiler, são fatos históricos; já estudamos isso no colégio. Ou deveríamos ter estudado. O interessante da obra de Euclides da Cunha é vermos como ele conta esses fatos. Vamos lá?

Os sertões, de Euclides da Cunha

O enredo

O enredo foi praticamento contado mais acima, só me resta explicar que a obra tem três partes principais:

A terra: nessa parte é feita uma extensa descrição geográfica do solo, do relevo, da fauna, da flora, do clima do Nordeste. 

O homem: nessa parte, o sertanejo e seus costumes “ditados” pelo meio são analisados pelo autor.

A luta: essa parte descreve Antonio Conselheiro e todas as expedições feitas à Canudos para por fim aos conflitos.

Vejam abaixo uma imagem de Antonio Conselheiro morto.

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A narrativa

O texto é um relato, logo as descrições são feitas em terceira pessoa, mas não pensem que é um relato que tenta ser imparcial, não; ao contrário, percebemos claramente as opiniões de Euclides da Cunha, vejam:

“E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu único milagre: conseguia não se tornar ridículo…”.

“Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada  por um doido. Não a conhecemos. Não podíamos conhecê-la.”.

Outro aspecto narrativo importante é a riqueza de detalhes nas ações de violência, o que pode causar desconforto, percebam:

“[…] Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o próprio invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubre. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.

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Minhas impressões e expressões

Essa obra limite entre obra literária e científica, o autor descreve minuciosamente a geografia do trajeto por qual passa e as etnias, denominadas “raça”, dos biotipos que encontra. Também são apresentados extratos de documentos, matérias publicadas em jornal e transcrição de relatos orais, o que denota uma apurada pesquisa de campo para elaboração da obra. Esse é o viés científico da obra. Porém, não posso deixar de ressaltar que a obra é impregnada de determinismo (o meio determina o homem) e de teorias que hoje consideramos racistas (a “raça” branca é superior e a mestiçagem é prejudicial ao desenvolvimento das nações), mas era o que estava em voga na época e a maioria dos escritores e cientistas acreditavam nessa balela.

A parte literária é formal. Há passagens que são realmente poéticas, como esta:

“De repente, uma variante trágica.

Aproxima-se a seca.

O sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.

Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará.

Buckle em página notável, assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca, o homem, às calamidades naturais que o rodeiam. Nenhum povo tem mais pavo aos terremotos que o peruano; e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado pelas vibrações da terra.”.

Confesso que achei a parte A terra bem cansativa. A parte O homem é mais interessante, mas impregnada pela visão preconceituosa que já citei. Em A luta, a parte que trata de Conselheiro é bem interessante, mas a riqueza de detalhes e de sangue dos conflitos me cansou um pouco também.

Não posso deixar de exaltar que esse excesso de descrição tem grande importância, pois nos mostra a narrativa de alguém, fora da luta, que presenciou parte da guerra. Assim, toda aura política que quiseram nos fazer acreditar que havia em torno dos fatos cai por terra, pois percebemos pelos olhos de Euclides da Cunha que a questão de Canudos era muito mais social que política.

Enfim, essa obra é um registro  muito importante, mas está longe de ser uma daquelas leituras agradáveis, com narrativa envolvente.

Assista ao vídeo em que faço vários comentários sobre a obra:

Viaje na leitura, já que a vida real é insuficiente!

Muito +

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