Ressonâncias estéticas: Leda e o cisne

fresque leda musee eugene delacroix 1798-1863
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Nessa série Ressonâncias Estéticas procuro acompanhar um tema recorrente em artes em diferentes épocas para perceber as mudanças de interpretação da mesma temática em diferentes contextos.

Dessa vez, vou tratar da passagem de Leda e o cisne, um dos mitos mais intrigantes que conheço. Já andei falando dele por aqui quando tratei de Zeus.

+ Entendendo a mitologia: Zeus e os seus

Em minhas andanças por aí, já tive oportunidade de ver obras que retratam esse mito em diferentes museus pelo mundo afora. Uma das passagens da mitologia mais recorrentes em obras de arte é a história de Leda e o cisne.

Mas quem foi Leda? Ela foi rainha de Esparta, casada com Tíndaro. Zeus/Júpiter, o deus-mor incorrigível que fertilizava tudo que se movia, transformou-se em um cisne e seduziu Leda, que chocou dois ovos, dos quais nasceram Castor, Pólux, Clitemnestra e ninguém menos que Helena de Troia. Helena e Pólux foram adotados como filhos de sangue de Tíndaro.

Já sabemos que o rapto de Helena de Tróia foi o mote da guerra mais famosa da história: a Guerra de Tróia. Já falei bastante sobre ela por aqui num post específico em que trato de antes, durante e depois da Ilíada.

+ A ilíada ilustrada

Isso pode nos fazer pensar que esse tema é tão recorrente nas artes plásticas porque além de ser um mito relacionado a Zeus, também explica a ascendência de Helena de Tróia, uma das principais personagens da antiguidade grega clássica.

Leda e o cisne, mosaico de Creta (Grécia)

Desde as expressões estéticas mais antigas (mosaicos e escultura em mármore), o tema de Leda já era comumente representado. 

Leda e o cisne com Eros (século II-III D.C.), obra romana (Galeria Borghese, Roma, Itália)

Durante o Renascimento, esse tema também foi muito recorrente. Aliás, não devemos nos esquecer que este foi um período de grande efervescência artística, principalmente em Florença. Porém, não deixa de ser curioso o fato de uma representação figura feminina nua ficar popular, pois vimos no post sobre Vênus que o nu feminino era pouco aceitável socialmente.

+ Ressonâncias estéticas – Vênus: deusa, virgem, cortesã… mulher!

Percebam que na antiguidade, a imagem de Leda é quase uma alegoria, muito próxima das imagens das deusas.

Leda e o cisne, cópia por Cesare da Sesto (1515-20) de um original perdido de Leonardo da Vinci (1505-1510) (Florença, Itália)

Com a Contra-Reforma, a pressão moralista da Igreja Católica aumentou e as obras com nu feminino foram destruídas, inclusive as de Da Vinci e de Michelângelo.

Leda e o cisne (1530), de  Michelângelo (original perdido) 

Leda e o cisne (1598-1600), de Paul Peter Rubens (Museu de Belas Artes, Houston, EUA)

Na imagem acima, vemos uma cópia que Rubens fez a partir da versão da Leda de Michelângelo.

Leda e o cisne (1531-1532), de Antonio da Correggio 

Uma das últimas obras do Renascimento a representar o tema  foi a de Correggio, mas também foi destruída, esfaqueada, pelo rei Luis XV. 

Leda e o cisne (1745), de François Boucher

Creio que a destruição das obras de mestre da pintura e a contínua pressão, ou repressão, da igreja fez com que o tema se tornasse escasso na produção artística por várias décadas. Exceção para duas obras, em meados do século XVIII, do mesmo autor: François Boucher. 

Leda e o cisne, de François Boucher (coleção particular)

No final do século XIX, a questão moralista-religiosa foi deixada de lado e Leda e o cisne voltaram a ser recorrentes na iconografia.

Leda e o cisne (c1865-1875), de Gustave Moreau (Museu Gustave Moreau, Paris, França)

Percebam que a obra de Moreau ainda tem influência religiosa: anjos, luz do espírito santo e Leda remetendo à imagem da Virgem.

Leda e o cisne (1880-1882), de Paul Cézanne (Barnes Foundation, EUA)

No final do século XIX e no século XX, a temática foi submetida a várias interpretações, de acordo com o viés estético de cada artista. Também começamos a ver uma Leda mais lasciva, mais participativa.

 Leda com o cisne (1884), de Giovanni Boldini

Leda e o cisne (1889), de Arturo Michelena (Museu Arturo Michelena, Caracas, Venezuela)

Leda e o cisne (1917), de Federico Beltran Masses (Museu de Málaga, Málaga, Espanha)

Leda (1917), de Klimt (obra destruída na Áustria durante a Segunda Guerra Mundial)

 Leda e o cisne (1945), de Henri Matisse (Coleção particular)

 Leda e o cisne, de Botero (Museu Botero, Bogotá, Colômbia)

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Leda atômica (1949), de Salvador Dalí (Teatro-Museu Dalí, Figueres, Espanha)

Leda e o cisne (1994), de Cy Twombly (MoMA, Nova York, EUA)

Leda e o  cisne (2006), Gabriel Grun (Galeria Holz, Buenos Aires, Argentina)

Também temos nossas versões brasileiras da Leda, que foi principalmente representada por Vicente do Rego Monteiro em várias versões, veja algumas: 

Leda e o cisne, de Vicente do Rego Monteiro

Leda e o cisne (1947), de Vicente do Rego Monteiro

Aproveitando o ensejo, aviso que a poesia também se rendeu ao mito. O poeta romântico irlandês, William Buttler Yeats apresentou sua contribuição à história da mãe de Helena de Tróia.
 
Leda and the swan (William B. Yeats)
 
A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.
 
How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?
 
A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
 
Being so caught up,
 
So mastered by the brute blood of the air
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop? 
Leda e o cisne (Trad. Augusto dos Anjos)
 
Súbito, um baque: as grandes asas brancas
Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,
As patas negras lhe afagam as ancas
E a estreitam, impotente, contra o peito.
 
Com dedos trêmulos, como afastar
Das coxas fracas o esplendor plumado?
E como não sentir a palpitar
O estranho coração, desabalado?
 
Um espasmo ― e eis que se gera um novo ser,
O muro rompido, a torre incendiada
E Agamêmnon morto.
                            
Ali, fremente,
 
Pelo poder brutal aprisionada,
Terá ela apreendido o seu saber
Antes que a solte o bico indiferente?
Não sei se vocês perceberam, caso não, pontuo que a imagem de Leda foi mudando de acordo com o passar do tempo, tal como aconteceu com a Vênus no post já citado. Temos a Leda, rendida, assustada, lasciva, lânguida, sedutora, agressiva… ressonância das diferentes concepções de mulher autorizadas, ou não, pela sociedade de sua época.
 

Muito +

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