Ressonâncias estéticas – Vênus: deusa, virgem, cortesã… mulher!

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Em homenagem ao dia internacional da mulher, este post se debruça sobre a representação do feminino nas artes plásticas. Com isso, também inauguro uma nova série, Ressonâncias estéticas, em que mostrarei as releituras de um mesmo fato ou obra. 

Como a cultura ocidental sempre se volta à Grécia antiga para explicar a origem das coisas, neste caso não será diferente. Assim, é claro que para tratar desse assunto a principal referência é Afrodite (Vênus, na tradição romana), símbolo maior do feminino. Ela era a deusa do amor, da sexualidade, do erotismo; por conta disso, as mulheres andavam com a imagem dessa deusa, como amuleto, para clamar por sensualidade e afins, tal como os católicos andam com imagens de santos protetores. Por tudo isso, a imagem de Vênus é uma idealização da figura feminina. Os avanços sócio-históricos fazem com que representemos a deusa de diferentes formas, considerando a posição da mulher no contexto em questão.

Isto posto, comecemos!

 Vênus de Milo (~ século II a.C.) (Museu do Louvre, Paris, França) 

Essa é uma obra originalmente clássica, não apenas porque representa as figuras clássicas da Antiguidade, mas também porque foi elaborada na Antiguidade. Desse modo, entendemos que era assim que os antigos percebiam a deusa, sendo também o ideal de beleza da época. 

Percebam que a imagem está parcialmente coberta. Pudor? Não. Pragmática. Na Antiguidade Clássica era comum apenas o nu masculino. 

É provável que essa obra do Louvre seja a representação mais famosa da deusa composta na Antiguidade, também é uma das poucas que permaneceram até os dias atuais. Isso porque a maior parte das imagens das ou se perdeu com o passar do tempo ou foi destruída pela Igreja na ânsia de substituir o simbolismo representado pela Vênus pela construção simbólica da figura da Virgem Maria.

Explicando melhor. Com o advento do Cristianismo e o domínio da Igreja, boa parte das imagens de Afrodite/Vênus foi destruída, a nudez da deusa foi coberta e, aos poucos, sua imagem foi sendo substituída pela da madona, a virgem. Já falei de como a imagem da Afrodite/Vênus foi convertida na imagem  da Virgem Maria neste post:

+ Origem do culto à imagem da madona

 No renascimento, com a retomada da cultura grega e aproximação do Cristianismo do platonismo, a tradição da Afrodite/Vênus foi recuperada. 

O nascimento da Vênus (1484–1486), de Sandro Botticelli (Galleria digli Uffizi, Florença, Itália)

Essa pintura de Botticelli é um dos ícones do Renascimento, época marcada, dentre outras coisas, pela aproximação da cultura cristã da cultura grega, sobretudo ao platonismo. Assim, vemos o nascimento da Vênus/Afrodite, uma das principais deusas do Olimpo pontuada por ícones cristãos.

A história do nascimento dessa deusa é narrada n’A Teogonia, de Hesíodo, que diz que ela nasceu quando Cronos/Saturno castrou seu pai. O deus do tempo cortou os órgãos genitais de Urano e os arremessou ao mar; da espuma feita com esse impacto nasceu Afrodite/ Vênus numa concha.  

Na pintura de Botticelli, a deusa não apresenta ares sensuais (Afrodite era considerada a deusa da fertilidade, do erotismo), mas ares pudicos, quase castos, remetendo-nos a uma figura divinizada, como a da Virgem Maria. Também temos presença de anjos, típico símbolo cristão.

 Vênus adormecida (1508-1510), de Giorgione (Gemaldegallerie Alte Meister, Dresden, Alemanha)

Embora o pintor não seja tão conhecido por nós, essa imagem é um ícone da pintura ocidental. Por quê? A pintura retrata uma mulher nua, o que não era comum. Além disso, ela está no campo, numa cena bucólica, o que também não era comum. A mão na virilha nos leva a uma interpretação ambígua: pudor ou excitação? Tudo isso combinado faz com que a figura representada, seja bem próxima de uma mulher real, apesar de o título da obra denominá-la “Vênus”. Por essas razões, a obra ficou resguardada por algumas décadas, sem acesso público.

Giorgione faleceu antes de terminar a obra, conta que Ticiano a concluiu. A partir do quadro de Giorgione, Ticiano fez… 

A Vênus de Urbino (1538), Ticiano (Galleria digli Uffizi, Florença, Itália)

Aqui temos uma evolução em termos de ousadia, seguindo a esteira de Giorgione. A ousadia se dá menos pela nudez do que pelo olhar. Embora o nu feminino não ser tradicionalmente comum, as deusas mitológicas sempre eram representadas com os seios à mostra porque não eram figuras reais, eram alegorias, e nunca encaravam o espectador. 

A Vênus de Ticiano não é uma deusa, uma figura alegórica, é uma mulher que olha de maneira ousada para seu espectador. Totalmente à vontade com sua nudez, essa mulher exala sensualidade e erotismo. Uma mão segura flores; a outra, cobre displicentemente seu sexo. Toda a composição da imagem nos faz crer que a mão sobre a virilha pouco tem a ver com pudor, mas sim com um gesto que simula a masturbação. Que mulher é representada? Uma cortesã, meretriz, num ambiente doméstico, tendo ao fundo serviçais procurando roupas para cobri-la.

Vênus ao espelho (1647-1651), de  Velázquez (National Gallery, Londres, Inglaterra)

Apesar de ter se passado mais de 100 anos desde a Vênus de Ticiano, o que poderia nos fazer supor uma evolução rumo ao liberalismo, a Vênus de Velázquez apresenta maior pudor. Estamos num contexto de repressão religiosa em razão da Inquisição, por isso, na Espanha do século XVII os nus artísticos eram muito raros.

 Um século e meio depois, ainda na Espanha, temos:

Maja nua (1790-1800), Goya (Museu do Prado, Madri, Espanha)

Maya vestida (1802-1805), Goya (Museu do Prado, Madri, Espanha)

Novamente temos uma mulher real, deitada sobre lençóis desarranjados, o que já insinua bastante coisa, com corpo nu e em diagonal, fortemente iluminado. Os braços atrás da nuca ressaltam os seios e indicam relaxamento e bem-estar. O olhar mira o espectador de forma desinibida e que se sabe sensual com suas formas voluptuosas. A inovação está na representação dos pelos pubianos.

Quem era essa mulher? Maja era uma figura urbana do contexto espanhol, que se vestia de maneira bem caracterizada e  reconhecida por ter comportamento liberal. Apesar disso, acredita-se que trata-se da duquesa de Alba, por quem Goya era apaixonado, quando o marido descobriu o quadro do nu, ameaçou Goya de morte e, rapidamente o pintor fez um quadro com a figura vestida.

Mesmo já estando às portas do século XIX, ainda havia o Tribunal da Inquisição e nu ainda era proibido. Por conta disso, o tribunal processou Goya, porém a intervenção do soberano Fernando VII, para quem ele trabalhava, não permitiu que o pintor fosse preso.

Grande Odalisca (1814), Ingres (Museu do Louvre, Paris, França)

Novamente temos uma mulher nua que encara o espectador. Dessa vez o olhar é altivo quase intimidador. O contexto é oriental, uma mulher de harém, acostumada a seduzir.

A liberdade guiando o povo (1830), de Delacroix (Museu do Louvre, Paris, França)

Dessa vez, temos uma mudança de contexto e uma mudança de representação. Os seios ainda estão à mostra, mas não há mais o olhar desafiador, há um braço levantado instigando à luta com a bandeira francesa; na outra mão uma arma. A “senhora” Liberdade é uma alegoria, uma espécie de divindade que sempre aparece nua ou semi nua e indiferente às questões terrenas. Não neste caso. Delacroix utiliza uma imagem clássica, mas politizada. Reparem que a alegoria está acima de todos: a liberdade acima de qualquer coisa. Temos a referência simbólica do feminino como um símbolo de resistência e de orientação à ação.

Fiz um post comentando mais detalhes desse quadro e apresentando seu contexto político.

+ Foco nas Artes: A liberdade guiando o povo (Delacroix)

Olympia (1863), de Édouard Manet (Musée d’Orsay, Paris, França)

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As pinceladas radicais de Manet e a vibração das cores ajudam a compor esse motivo que já estava se tornando um clássico, mas que ainda assim não parava de chocar a sociedade. Novamente temos a figura de uma mulher nua, que não é uma deusa, mas uma prostituta parisiense que olha o espectador de frente, num misto de serenidade e desafio ao mesmo tempo. Ela está recebendo flores, provavelmente de um admirador, presente comum às cortesãs.

Mesmo tendo sido inspirada na Vênus de Urbino, de Ticiano, Olympia causou indignação ao público porque representa uma cortesã muito segura de si, o que parecia ser uma afronta.

Ainda chocando a sociedade, Manet também pintou…

Almoço sobre a relva (1863), de Édouard Manet (Museu d’Orsay, Paris, França)

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Essa obra de Manet causou furor e rejeição dentre os críticos e o público em geral. Tudo isso por quê? Novamente temos uma figura feminina nua, que não é uma deusa ou alegoria e muito menos uma virgem, como era comum no Renascimento. É uma mulher nua, junto a homens vestidos e ao ar livre, que olha o espectador de frente e sem pudor.

 Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Picasso (MoMA, Nova York, EUA)

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Na pintura de Picasso, temos duas personagens centrais estão olhando diretamente para o espectador, num convite sensual. Nesse caso, também são prostitutas numa postura totalmente desinibida.

Já fiz um post tratando exclusivamente dessa obra, se quiser saber mais detalhes acesso o link:

+ Foco nas Artes: Les demoiselles d’Avignon (Picasso)

Percebam que quando a figura feminina não sofre interferência cristã (seja por crença, como no caso da Vênus de Botticelli, seja por proibição como no caso da Vênus de Velázquez) sempre temos figuras femininas nuas ou seminuas e em atitude de desafio. Dentre estas, com exceção da obra de Delacroix, que tem propósito diferente das demais, elas olham o espectador de frente numa postura que mescla ousadia, altivez, transgressão e enfrentamento. 

Também devemos observar que boa parte delas são prostitutas, o que nos faz pensar que a ousadia e o enfrentamento não era comum (ou era ofensivo) às “mulheres de família”, as tradicionalmente “belas, recatadas e do lar”. 

A partir disso tudo, podemos concluir que para mulheres demonstrarem resistência, quebrarem paradigmas  e desafiarem instituições, temos um lastro cultural que nos orienta a mostrar os seios e partir para o enfrentamento. Talvez isso nos ajude a entender a razão que faz muitas mulheres se desnudarem em manifestações públicas, em protestos que reivindicam direitos.

Muito +

Veja a série Foco nas Artes

Veja a série Entendendo a Mitologia

Veja a série Percepção em foco

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