Rota de artista: Victor Brecheret

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Dessa vez, farei uma Rota de Artista diferente, em vez de fazer um trajeto geograficamente linear, um city tour virtual narrativo, usarei a ordem cronológica, pois os pontos que nos interessam estão muito distante geograficamente. Tudo isso para dizer que venho falar de um artista que tenho um sobrenome que me enganou por muito tempo, pois pensei que ele fosse francês. Só que não.

Victor Brecheret (1894, Farnese – 1955, São Paulo) nasceu na Itália, mas é brasileiro. Desde muito cedo ele já parecia saber o que queria da vida, pois em 1912 iniciou seus estudos de desenho, entalhe e modelagem no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, prédio onde atualmente funciona a Pinacoteca do Estado.

Pinacoteca do Estado

Contudo, estudar no Brasil não foi suficiente para Brecheret. Em 1913 ele foi para Itália estudar escultura, pouco tempo depois montou seu ateliê em Roma e em 1916 teve o primeiro na Exposição Internacional de Belas Artes, em Roma, com a obra Despertar.

Quando retornou ao Brasil, com ajuda de Ramos de Azevedo, instalou seu ateliê no Palácio das Indústrias, onde trabalhou isoladamente e de maneira intensa.

Palácio das Indústrias

Lá por 1920, Brecheret ficou conhecido entre os artistas que já estavam incomodados com o tipo de arte que estava sendo produzida no país e que propunham uma renovação artística. Estou falando de Menotti Del Pichia, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, só para citar alguns. Nesse mesmo ano e sob influência desses artistas modernistas, ele desenvolve a maquete do Monumento às Bandeiras.

Em 1921, Brecheret expôs a escultura Eva, que foi  adquirida pela Prefeitura de São Paulo e hoje está exposta no Centro Cultural São Paulo. Vejam!

Eva, de Victor Brecheret Eva, de Victor Brecheret
Eva, de Victor Brecheret Eva, de Victor Brecheret

Mesmo na França, onde participou de uma exposição, em 1922, Brecheret participou da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipalpois havia deixado algumas esculturas para esse evento. Em Paris, expôs a escultura Templo da Minha Raça no Salon d’Automne  e foi premiado entre quatro mil concorrentes. A partir de então, Brecheret manteve paralelamente uma carreira na Europa e no Brasil. Em Paris fundou a Sociedade Pró Arte Moderna.

Teatro Municipal de São Paulo

Embora não tenha ficado pronta para a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal está exposta Diana Caçadora, escultura linda que ficou pronta pouco tempo depois da Semana.

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Também no começo da década de 1920, Brecheret esculpiu uma famosa obra, que hoje faz parte do acervo da Pinacoteca, mas que durante 80 anos enfeitou o túmulo da poetisa Francisca Júlia no cemitério do Araça. Trata-se da Musa Impassível (1923).

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Musa impassível é o título de um poema de Francisca Júlia. Vejam a obra mais de perto.

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Continuando com arte tumular, temos a obra Sepultamento que pode ser encontrada no túmulo da mecenas Olívia Guedes Penteado, no Cemitério da Consolação. É uma beleza, vejam só:

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Sepultamento, foi uma obra premiada no Salon d’Automne em Paris, em 1923. Não sei dizer se a do cemitério é a mesma ou um réplica da premiada.

Seguindo sua carreira internacional, em 1924, novamente Brecheret expõe no Salon d’Automne de Paris, Portadora de Perfume. Novamente não sei se é a mesma obra ou outra parecida, mas no Parque da Luz também há uma Portadora de Perfume, de Brecheret. Vejam!

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E a fama internacional continua! Em 1925, Brecheret expôs no Salão da Sociedade dos Artistas Franceses e recebeu uma menção honrosa. No Salon d’Automne expôs A Dançarina

Na década de 1930, Brecheret, além de suas intensas atividades artísticas (organização de exposições, festas, encontros sociais…), também teve atuação política: foi sócio-fundador da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM). Nesse período, houve até reconhecimento internacional de seu trabalho, quando o governo francês adquiriu a escultura Grupo para o Musée du Jeu de Pomme, em 1934. Nesse mesmo ano, o artista recebeu a Cruz da Legião de Honra da França, a título de Belas Artes, no Grau de Cavaleiro. 

Já na década de 1940, ele nos “agraciou”. Vejam as esculturas Graça I e Graça II, de 1940, atualmente na Galeria Prestes Maia.

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Em 1941, Brecheret venceu o concurso internacional para o Monumento ao Duque de Caxias, considerado a maior escultura equestre do mundo (14 metros de altura, 7 metros de largura e 11,5 metros de comprimento). Essa escultura pode ser encontrada na Praça Princesa Isabel. Devo confessar que a bicha é realmente enorme! É até difícil de tirar foto.

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O Fauno, hoje encontrável no Parque Trianon, aquele em frente ao Masp, foi esculpido em 1942. Percebam que ele está dando um “beijinho no ombro”. Será que Valeska Popozuda o conhece?

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Em 1945, ele esculpiu Depois do banho, escultura hoje exposta no Largo do Arouche. Acho que essa escultura está mais para Eva, não? A escultura que vimos anteriormente, exposta no Centro Cultural São Paulo, também poderia se chamar Depois do banho. Será que não trocaram as plaquinhas?

Depois do banho, de Victor Brecheret

Vocês se lembram que em 1920 Brecheret tinha feito a maquete do Monumento às bandeiras? Então, em 25 de janeiro de 1953 , aniversário da cidade de São Paulo, ele inaugurou a obra, um dos símbolos da cidade. Também conhecida como Deixa que eu empurro, esse monumento está em frente ao Parque do Ibirapuera.

 Ainda há mais obras de Brecheret por aí, mas como este post já está muito longo e, também, não tive oportunidade de conhecer todas, apenas vou indicá-las: Via Crucis (1946), na capela do Hospital das Clínicas, São Paulo; O Índio e a Suaçuapara, atualmente esse escultura está na Bélgica; Três Graças e São Francisco (ambos de 1954), afrescos em Osasco, São Paulo; afrescos da capela Pararanga, em Atibaia, São Paulo;  Joana D’Arc Teatro Maria Della Costa, São Paulo;  Máscara de Menotti del PicchiaPraça Juca Mulato, São Paulo; Busto de Alcântara Machado, Academia Paulista de Letras (Largo do Arouche), São Paulo.

Em 1955, Brecheret participou da III Bienal Internacional de São Paulo e da mostra Artistes Brésiliens, em Paris. Em dezembro do mesmo ano, faleceu em São Paulo. Fernando Sombra descreve a morte do artista: “… Brecheret morreu feliz; de volta de um cinema abriu o portão de sua casa. Manobrou o seu velho Oldsmobile para entrar na garagem. O carro rodou alguns metros, parou. O coração de Brecheret parou junto com ele, de enfarte…”.

O artista está enterrado no cemitério que considero o mais lindo de São Paulo, o Cemitério São Paulo.

Tumulo victor brecheret

Há pouco tempo, tive o privilégio de ver algumas de suas esculturas sacras numa exposição do Museu de Arte Sacra de São Paulo, onde fotografei esta imagens.

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 Lindas, não?DSC_2016

Ao reparar bem nas formas de Brecheret, lembro-me de um outro artista, do qual conheci a ex-existência e suas obras em Paris: Bourdelle. Fui ao Museu Bourdelle e vi várias obras desse artista, que também me remeteu à Rodin. Descobri que Rodin influenciou Bourdelle e ambos influenciaram Brecheret. É a “angústia da influência” de que trata Harold Bloom. Fiz um post sobre o Museu Bourdelle, em que há várias obras dele, confiram aqui se não tenho razão sobre a influência. Percebam esta imagem de uma obra de Bourdelle:

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Percebemos a semelhança principalmente nas obras Graça 1 e 2 e Depois do banho. Voltem lá e reparem.

Muito +

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