São Paulo que vale a pena, n.4: Liberdade – parte II

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No outro post, tratei da cultura japonesa no bairro da Liberdade. Neste post, ainda continuamos no mesmo bairro, mas agora para tentar explicar qual o sentido do nome da Capela dos Aflitos e do da Igreja Nossa Senhora dos Enforcados. Para abordar a história dessas igrejas, terei também que tratar de uma outra, com nome igualmente assustador: Igreja Nossa Senhora da Boa Morte. E, como não poderia ser diferente: senta que lá vem história!  

No século XIX, a Baixada do Glicério ou Várzea do Carmo era uma região muito pobre e habitada, sobretudo, por negros, que vivam isolados com suas crenças e hábitos. Era um bairro de negros, com cemitério de negros, com desfiles de bloco e ranchos. Também era um o local era refúgio de festas e gueto de sambistas dos mais famosos, um núcleo cultural, que ainda contava com salões de baile e festas.

Subindo um pouco pela rua Tabatinguera, chegamos na rua do Carmo, onde, quase na esquina, encontramos a…

Igreja Nossa Senhora da Boa Morte

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Situada na Rua do Carmo, antiga rua da Boa Morte, essa igreja foi construída em 1810, numa colina, na entrada da cidade, de onde era possível ver quem chegava de Santos através do Ipiranga e do Rio de Janeiro. 

O nome “Boa Morte” é uma súplica, é o que os escravos pediam, subindo da atual Várzea do Glicério pela Tabatingüera, antes de serem enforcados no Largo da Forca, na atual Praça da Liberdade (tratarei disso mais adiante). 

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 Por fora, a igreja é bem simples, embora esteja cuidada. Porém, por dentro é muito mais bonita. O estilo rococó do interior é inesperado, pois por fora o estilo é colonial.

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 Há poucos anos, essa Igreja ficou fechada durante 7 anos para reforma, mas agora já está aberta ao público. Está linda!

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Pena que pelas imagens do celular não é possível apreender a beleza dos detalhes. Tudo é muito singelo, mas muito bonito.

Nas  dependências dessa igrejinha, reúne-se a pastoral dos negros. Lá situa-se o quilombo central. O que faz dessa igreja da Boa Morte uma espécie de irmã da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. Vejam a imagem.

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Eu disse anteriormente que os escravos pediam “boa morte”, mas antes de serem enforcados, nos últimos momentos de aflição, aguardavam  a execução na…

 Capela dos Aflitos

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Essa capela, construída em 1774, tem origem associada ao Cemitério dos Aflitos, primeiro cemitério público de São Paulo, desativado após a construção do Cemitério da Consolação, em 1858. Com o cemitério desativado, mais tarde o terreno foi loteado, e os particulares que compraram os lotes construíram suas propriedades em volta de forma desordenada, “estrangulando” a capela.

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Por dentro ela é minúscula e muito simples.

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 Dizem que essa capela é mal-assombrada. Creio que isso se deve ao fato de o Cemitério abrigava corpos dos pobres, indigentes, condenados e não católicos da cidade, ou seja, sobretudo os escravos. Por isso o nome “Cemitério dos Aflitos”. 

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Voltando ao martírio do condenado,  após a pena, os corpos eram velados na…  

Igreja Nossa Senhora das Almas dos Enforcados

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Essa igreja surgiu em forma de capela em 1887 em homenagem ao dito “milagre” do Chaguinhas. A história é a seguinte: em 1821, houve uma revolta no Primeiro Batalhão de Caçadores e o cabo líder do movimento, o Chaguinhas foi condenado à forca. A forca foi erguida no que depois tornou-se Largo da Forca, atual Largo da Liberdade, e houve a primeira tentativa de execução, mas a corda se rompeu e Chaguinhas não morreu. Todos pediram por “Liberdade!”, mas ainda assim tentaram executá-lo uma segunda vez e, novamente, a corda rompeu-se. Todos gritaram “Milagre”. Mas na terceira tentativa ele foi executado. Chaguinhas era muito querido entre os seus e, como era tradição que o condenado fosse libertado se a execução não fosse realizada, houve um clima de injustiça e milagre. Essa situação gerou muita devoção no local e foi erguida uma cruz no local e sempre eram acendidas velas. Depois disso, construíram a capela; hoje, Igreja.

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Depois de Chaguinhas, o local continuou sendo “palco” para os condenados à forca e ficou conhecido como “Largo da Forca”. Antes desse local, a forca era situada na rua Tabatinguera, até 1604. No período colonial, no Largo da Forca houve execuções de criminosos e escravos. Em 1891, o local recebeu o nome de Liberdade.

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Nessa Igreja, após o enforcamento, era feita uma missa na intenção da alma do condenado. Continuando com a via crucis, os parentes e amigos dos enforcados desciam pela atual rua dos Estudantes e pediam um bálsamo espiritual para a aflição de suas almas na Capela dos Aflitos, ao lado do Cemitério dos Aflitos, onde o condenado havia sido enterrado.

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