São Paulo que vale a pena, n.1: centro histórico – parte I

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Gostar de São Paulo não é algo automático, como uma paixão à primeira vista ou uma ligação transcendental difícil de explicar. No entanto, a cidade tem seu charme e sua beleza. São Paulo deve ser desvendada aos poucos, no decorrer do processo de conhecimento ou de reconhecimento do local. Mas você não pode ter vista cansada, é preciso ter olhar sensível para descobrir o belo no que não é tão evidente. Ou descobrir o sublime no grotesco, como diria Victor Hugo.

Tudo isso por quê? São Paulo é uma cidade de excessos e de exageros: muita gente, muito trânsito, muito longe, muita fila, muita pobreza, muito luxo… Enfim, uma metrópole. Costumo dizer que em SP há público para tudo. Nos feriados prolongados ouvimos o noticiário dizer que milhões de carros deixam a capital rumo ao litoral. Quando eu era ingênua, acreditava que nesse período a cidade ficava vazia. Não. Mesmo com a debandada em massa, ainda há fila para tudo.

Desse modo, resolvi fazer uma série de posts sobre São Paulo e sua beleza, pois acredito que a cidade não parece ser um sonho turístico de muita gente. Como me considero uma imigrante assimilada – não nasci aqui, mas vivo aqui há muitos anos – talvez eu tenha uma perspectiva um pouco diferente, que não seria a dos paulistanos e também não a dos estrangeiros.

Convido a todos a fazer um city tour virtual narrativo comigo. Começarei pelo começo: vou descrever minhas impressões por onde a cidade começou.

Páteo do Colégio

Azulejo Pateo colegio

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Como já informa o a imagem acima, São Paulo nasceu aqui. No século XVI, em razão do projeto de evangelização do novo mundo, por parte da Igreja Católica, a Companhia de Jesus instalou-se aqui, fundando o Colegio de São Paulo de Piratininga numa cabna de pau-a-pique. No século XVII foram construídos, em alvenaria, a igreja e o Colegio. Nessa época, havia grandes conflitos entre jesuítas e bandeirantes. Algum tempo depois, o conflito passou a ser entre os jesuítas e a coroa portuguesa. Tanto os bandeirantes quanto os portugueses vez ou outra acabavam por expulsar os jesuítas daqui. Até que, na segunda metado do século XVIII, a administração pombalina expulsa de vez os jesuítas e no local do Pateo constrói o Palácio dos Governadores.

Em 1953 esse espaço é devolvido aos jesuítas e no ano seguinte o Palácio dos Governadores é demolido e em seu lugar é construído um novo Páteo do Colégio, à semelhança do primeiro. Esses eventos foram para para comemorar o IV centenário da cidade. Até hoje é mantida e protegida uma parede da construção original.

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Um os percussores do projeto inicial da Companhia de Jesus foi José de Anchieta, um jesuíta que nos é famoso por ter catequizado os índios da região, dentre eles o mais famoso foi o cacique Tibiriçá. Hoje, o espaço do Páteo é composto pela igreja, pelo Museu Anchieta (tem o fêmur do Anchieta lá!), pela biblioteca Padre Antonio Vieira. Mas o que é mais conhecido dentre os paulistanos é o restaurante do Páteo, onde é servido um dos melhores cafés de São Paulo.

Continuando com nosso city tour, logo à direita do Páteo está a…

Casa da Imagem

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Esse espaço, abriga uma coleção de 710 mil fotografias catalogadas sobre São Paulo, com o objetivo de preservar a memória da cidade. Já vi fotos incríveis lá. As minhas preferidas são as de São Paulo do início do século XX. Por ser um belo exemplar de arquitetura da cidade, essa casa é uma “peça do acervo” do Museu da Cidade de São Paulo, que tem mais 12 exemplares arquitetônicos pela cidade. Já fiz um post sobre esse espaço.

+ Conhecer São Paulo: Casa da Imagem

Imediatamente ao lado direito da Casa da Imagem está o…

Beco do Pinto

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O Beco do Pinto também é uma “peça do acervo” do Museu da Cidade de São Paulo. Atualmente, esse espaço é destinado a abrigar projetos de artistas contemporâneos. São esses caras que fazem aquelas instalações que a gente não entende muito bem.

+ Conhecer São Paulo: Beco do Pinto

Esse Beco separa a Casa da Imagem do…

Solar da Marquesa de Santos

Solar da Marquesa Imagem deste link

Eis a número 1 dentre as “peças do acervo” do Museu da Cidade de São Paulo. É o único exemplo que resta em nossa cidade desse tipo de sobrado de arquitetura aristocrática do século XIX. Nesse sobrado viveu, por mais de 30 anos, a amante de D. Pedro I. Hoje no espaço acontece algumas exposições pouco representativas, contudo, o que há de mais interessante é a mesmo a arquitetura.

+ Conhecer São Paulo: Solar da Marquesa de Santos

Continuando com nosso city tour, em frente ao Solar, há a rua Floriano Peixoto, seguimos por ela e viramos à esquerda e nos deparamos com a…

Caixa Cultural

Caixa Cultural São Paulo

Nesse prédio da Caixa Econômica Federal, de estilo art deco, está a Caixa Cultural, um centro cultural com espaços para exposição de artes plásticas e fotografia. Também há o Museu da Caixa Cultural, espaço que reconstrói o ambiente de trabalho dos anos 30, com objetos como calculadoras mecânicas, máquinas de loteria, máquinas registradoras, mapas centenários da cidade, cédulas antigas, dentre outros.  Já fiz bons cursos de história da arte e já vi boas exposições de fotografia aqui.

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Há uns 10 anos, foi iniciado o projeto do Quadrilátero Sé, que tinha como ideia recuperar faixadas de construções compreendida entre a Praça da Sé e as ruas Wenceslau Brás, Roberto Simonsen e Floriano Peixoto, e transformá-las num grande centro cultural. Além de contemplar o acervo e as atividades da Caixa Cultural, esse projeto tinha como proposta de composição: teatros, cinemas, auditórios, salões para exposições de arte e um segmento residencial, dentro do programa de arrendamento habitacional da Caixa, corroborando a ideia de revitalização do centro. Não sei o que deu errado com esse projeto. Algumas fachadas foram recuperadas, no entanto, mais nada foi adiante. Eu pensei que deixariam tudo pronto para a comemoração dos 450 anos de São Paulo, em 2004, mas estou esperando a finalização de tudo até hoje.

+ Conhecer São Paulo: Caixa Cultural

Bem, a Caixa Cultural é localizada na Praça da Sé, saindo desse espaço, à esquerda temos a…

Catedral da Sé

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No início do século XX, mais precisamente em 1913, foi iniciada a construção da Catedral da Sé. Todos os granitos e os vitrais que compõem o estilo neogótico da catedral é uma referência  arquitetônica da cidade.  Foi inaugurada, mesmo com as torres inacabadas, em 25 de janeiro de 1954, também em comemoração ao IV Centenário da cidade. A catedral comporta 8 mil pessoas e possui 111 metros de comprimento por 46 metros de largura.

image198 Acho a catedral ainda mais linda por dentro. O pé-direito é altíssimo! Parte do material utilizado na construção da catedral foi doada por representantes da elite paulistana. Assim, temos mármore de Carrara, jacarandá, dentre outros.

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Próximo ao altar, há uma entrada que dá acesso à uma parte subterrânea: a cripta.

Cripta sé Imagem deste link

A cripta é linda! Aqui estão os mausoléus do cacique Tibiriçá e do padre Diogo Feijó, além dos túmulos dos bispos de São Paulo. Mesmo sabendo que há restos mortais nesse espaço, não dá para deixar de apreciar a beleza do local.

Saindo da Catedral, atravessamos a Praça da Sé e podemos escolher entre seguir reto pela rua 15 de novembro e virar a primeira à esquerda ou seguir pela rua direita, virar na primeira à direita, caminhar por um quarteirão para chegar no…

Centro Cultural Banco do Brasil

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Adoro esse lugar! Aqui há cinema, teatro, auditório e cafeteria. Em qual outro lugar eu poderia passar um fim de semana assistindo ao decálogo do Kzryztof Kieslowski? Onde eu veria boa parte da coleção do Musée d’Orsay ou uma exposição do Escher? Nenhum outro lugar vi uma enorme exposição sobre a Índia e outra sobre o Islã. Onde haveria palestras que mesclam arte e filosofia, uma espécie de café filosófico? O CCBB é um espaço que tem uma das melhores, programações culturais da cidade. Em minha opinião é a melhor programação que temos por aqui. Agora mesmo, em agosto de 2013, está tendo uma grande exposição com obras dos mestres italianos do Renascimento. Ainda não vi, mas já sei que é um desbunde!

O CCBB  tem 5 andares e ocupa uma edificação de 1901,  com uma arquitetura fantástica em estilo neoclássico. Há um mosaico lindo no hall central.

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Seguindo com o city tour, saindo do CCBB, viramos à esquerda, chegamos na rua 15 de novembro, viramos à esquerda novamente e seguimos reto até chegar na Ladeira Porto Geral. Descemos a Ladeira e nos deparamos com a… 
 
Rua 25 de março 

Rua 25 de março Imagem deste link

A Rua 25 de março é assim como na imagem acima. Nos dias calmos. Aqui há um pouco de tudo, ou melhor, muito de tudo. Há quinquilharias de todo tipo: fantasias para carnaval e halloween, enfeites de natal etc. Além disso tudo, é um ótimo lugar para você comprar matéria prima para artesanato, não importa o tipo porque há: lãs para tricô, linhas para crochê e outros bordados, moldes para ovos de Páscoa e panetone, tecidos para costura etc. O local é realmente mais barato. Não apenas a Rua 25 de março, mas também as ruas paralelas e transversais vendem “de um tudo!”.

+ Maquiagem na 25 de Março: onde comprar

+ Bijuterias na 25 de Março: onde comprar

Pegando uma dessas ruas transversais da Rua 25 de março, chegamos na rua Cantareira, onde encontramos o…

Mercado Municipal

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Ainda não vi um mercado municipal maior do que esse. Projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1933, o Mercado Municipal conta com mais de 300 bancas que vendem produtos de várias partes do mundo!

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Em minhas andanças por aí, percebi que cada cidade tem sua própria noção de mercado municipal. O mercado que em Montevidéu era repleto de parrillas (vejam Montevidéu: uma cidade outonal); o que vi em Santiago do Chile (vejam Santiago do Chile: interessante e convidativa), repleto de peixes; o de São Paulo, repleto de frutas, oleoginosas, queijos, vinhos… é uma misto de armazém com feira, numa arquitetura muito bonita.

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Mas uma coisa todos têm em comum: muita comida!

Pastel bacalhau Imagem deste link

Além do famosíssimo pastel de bacalhau, também há o enorme sanduíche de mortadela. Fico devendo avaliação desses dois produtos porque o sanduíche é muito grande e me desanima, já o pastel eu não comeria nunca porque não gosto de bacalhau. Mas há muitas pessoas que só vão ao Mercadão apenas para comer um desses dois pratos. Ou comer os dois.

Atrás do Mercado Municipal, andando um pouquinho mais, encontramos o…

Museu Catavento

Museu catavento

Inaugurado há 4 anos, o Museu Catavento ocupa o Palácio das Indústrias, construção que já foi sede da Assembleia Legislativa e, por último, da Prefeitura da cidade. O Catavento é um museu de ciências, um espaço bem interativo dividido por  4 seções: universo, sociedade, engenho e vida. É um espaço muito popular entre os estudantes, que têm oportunidade de experienciar parte da teoria que aprendem na escola. Gosto da temática do museu, mas o que mais me atrai nesse espaço é a arquitetura, que parece a de um castelinho. A construção é do início do século XX, entre 1911 e 1924, e também foi projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo.

+ Conhecer São Paulo: Catavento Cultural

É bom parar por aqui. Ainda há muito mais sobre o centro de São Paulo, porém continuarei em outro post porque este já está muito longo.

Muito +

Veja toda a série São Paulo que Vale a Pena

Veja a série Comer em São Paulo

Veja também o álbum fotográfico do Centro Histórico

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