Você sabia?, n.6: origem do culto à imagem da madona

Madona, de Sassoferrato; Madona de Rafael; Madona e a criança, de Rafael; Madona, de Bellini
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Você sabia como, quando e por que começaram a cultuar a madona? Não me refiro à cantora.

Este Você sabia? é uma resposta à pergunta: de onde surgiu a imagem da madona, figura tão representada na pintura renascentista?

Já que não poderia ser de outra forma, esta é mais uma longa história, que, tenho certeza, irão gostar de conhecer.

Como toda civilização necessita de suas crenças e seus mitos, a Grécia Antiga, como é de conhecimento geral, também tinha sua simbologia. Na mitologia grega, Afrodite era a deusa do amor e da sexualidade.

A origem da deusa aconteceu de forma muito interessante. Segundo o gênesis grego, no princípio era o Caos (fenda), que gerou a Géia ou Gaia (a Terra), que por sua vez espontaneamente gerou Pontos (o mar) e Urano (o céu). Como naquela época não existia pecado e, menos ainda, incesto, Geia se uniu a seu filho Urano, com quem teve cinco guris, também conhecidos como “Titãs” [não, não é o grupo de rock]. Entre os Titãs estava Chronos, o escolhido por sua mãe para destronar o pai, Urano. Para representar esse momento histórico, Goya pintou o famoso quadro Saturno.

Chronos devorando seus filhos, de Goya
Saturno, de Goya

Dotado de malvadeza de fazer inveja a qualquer psicopata pós-moderno, Chronos, com uma foice de ferro, metal gerado por Geia [já deu para perceber a quem Chronos puxou, não?], resolveu cortar o mal pela raiz e castrou Urano. Para ter certeza de que não seria possível uma reconstituição das partes, Chronos atirou ao mar a bolsa escrotal e o pênis do pai. As partes do deus-céu provocaram uma onda de espuma manchada de sangue, da qual nasceu Afrodite [que estilo!].

Por conta disso, no imaginário grego, a figura da deusa do amor sempre é representada por uma mulher saindo do mar ou de uma concha. Outros símbolos são a cor púrpura, a maçã, a romã e a rosa. Afrodite, também conhecida como “a celestial”, “a cheia de graça”, “a terrível”, tinha a graça, o sorriso provocador, o olhar oblíquo [descobriram agora onde Machado de Assis foi buscar inspiração para criar a Capitu?]; era também lasciva e atordoante [imagino que também Bizet, andou buscando inspiração na deusa para criar uma mulher-diaba, a Carmen]. Na astronomia, Afrodite é a primeira estrela a surgir no alvorecer e a última a desaparecer no amanhecer [de quem vocês acham que Manoel Bandeira estava falando no poema Estrela da manhã?].

Nas artes plásticas, sempre que virem uma mulher seminua, com os braços levantados, mexendo nos cabelos, denotando muita sensualidade, será a representação de Afrodite. [Espero que agora os homens entendam porque as mulheres mexem tanto nos cabelos… Não é provocação, não. É herança divina.].

Afrodite era uma das deusas mais pops da Antiguidade [dá para imaginar o por quê?]. Odes eram prestadas àquela que protegia, instigava, inspirava e abençoava os atos sexuais [o que acham que deu origem a palavra “afrodisíaco”?]. Mulheres da Antiguidade carregaram mini imagens da deusa, como hoje muitos evangélicos carregam a bíblia.

Mas não era só os gregos que tinham sua Afrodite, para a mitologia romana Afrodite era a Vênus. O filho de Vênus, Enéas [não, não é o do Prona], foi o fundador de Roma. É bom explicar que aquela fábula da loba que amamentou Rômulo e Remo foi a história de criação da República romana. Fábula por fábula todas são importantes porque povoam o imaginário coletivo.

Voltando a Vênus, em Roma a deusa desfrutava do mesmo prestígio que tinha na Grécia. Saibam que as palavras “venerar”, “venerável”, “reverenciar”, “venial” são oriundas de “Vênus”. E com toda essa importância, Vênus tinha um dia da semana dedicado a ela: a sexta-feira. É por isso que em alguns idiomas esse dia também é grafado por uma variação do nome da deusa: veneris dies (latim), viernes (espanhol), vendredi (francês), venerdi (italiano) [vejam o Você sabia? n.1]. Variações do mesmo tema também são o perseguido “monte de Vênus” e a tão usada [espera-se] “camisa de Vênus”.

Bem, como nem tudo são flores, com o surgimento do Cristianismo, a importância de Afrodite/Vênus foi renegada e suprimida. Os cultos a Afrodite e a Dionísio eram voltados para o erotismo e à embriaguez. Acreditava-se que a única forma de aproximação aos deuses era por rituais que enlevavam e excitavam o corpo por meio do gozo carnal [como os antigos eram sabidos!]. No entanto, os cristãos acreditavam que a enlevação se dava por meio do espírito, da alma e por isso o culto a Afrodite/Vênus foi combatido e amaldiçoado. E o Cristianismo retomou a divisão entre corpo e alma idealizada por Platão [que retrocesso!].

Em virtude disso, os cristãos perseguiram a imagem de Afrodite/Vênus, mutilando os ícones que representavam a deusa. É por isso que está mutilada a famosa escultura Vênus de Milo, uma das poucas obras recuperadas. Aos poucos, a tradição devocional cristã foi associando carga negativa à deusa. Isso dura até hoje. “Veneno”, “venérea” são palavras que os cristãos “extraíram” de Vênus. A imagem da deusa também foi, aos poucos, convertida em imagem de bruxa.

Vênus de Milo
Vênus de Milo

Em face disso, os romanos ficaram num terrível dilema: como manter a veneração pela deusa que teve um filho que criou a cidade e, ao mesmo tempo, seguir a nova doutrina cristã que se espalhava pelo Ocidente como uma febre? É aqui que a famosa madona [não a cantora] entra em cena. A solução foi uma grande impostura: os romanos cobriram a deusa e a transformaram numa matrona quase santa. Assim, a imagem de uma mulher irreal, não encontrada na sociedade, deixou de ser instigadora da sensualidade e protetora do erotismo e passou a ser uma figura, muito coberta, voltada para uma criança. O que negou nossa sexualidade antes tão bem representada pela Afrodite/Vênus.

Contudo, há muito tempo a História nos mostra que a negação e a supressão de nossa primeira natureza é uma impostura que não dura nem para muitos e nem por muito tempo. Quando se pretendia fazer alguma subversão na pintura, de tempos em tempos artistas resgatavam a imagem da Vênus. Botticelli foi um dos muitos perseguidos que tiveram suas obras destruídas porque preservou a imagem da deusa.

Vênus de Botticelli
Vênus de Botticelli

Há uma famosíssima obra que traz a deusa trasvestida: Monalisa. Essa também é uma madona, contudo é ambígua porque mesmo coberta e nos moldes cristãos, mantém, por meio do sorriso, a graça de Vênus.

Monalisa, de Da Vinci
Monalisa, de Da Vinci

A última vez que a deusa apareceu para subverter os valores foi na famosa pintura de Picasso: Les demoiselles d’Avignon, obra que representa o manifesto cubista.

Les demoiselle d'Avignon,  de Picasso
Les demoiselles d’Avignon, de Picasso

Contextualizando essa situação com a realidade brasileira, temos a devoção a várias santas matronas. Em detrimento disso, também temos renegadas a Iara (Iemanjá) e todas as manifestações religiosas, corporais e sensuais de origem africana. Os africanos, assim como os gregos, tinham e ainda têm vários deuses, espíritos em sua simbologia e mantiveram suas crenças apesar de toda castração moral, religiosa e social. Além de aceitarem bem seu corpo e reconhecerem sua exalante sensualidade.

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